MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
De
todos os movimentos sociais no campo, o mais importante e bem-organizado é
o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), no Brasil.
Leia a reportagem especial sobre a
Escola Florestan Fernandes (ENFF)
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Apesar de
existirem movimentos similares no Paraguai, Equador, Peru, México e
Guatemala, o MST é o que mais se destaca na América Latina pela
revolução que está promovendo no Brasil. O editorial
da Revista Caros Amigos (Edição Especial número 6, Editora
Casa Amarela, São Paulo), afirma que "ao promover uma reforma
agrária autêntica, porque elaborada não em gabinetes de
poder mas em barracas de plástico e sustentada pela letra da Constituição,
o MST concretiza uma revolução sem precedentes na história
do Brasil, ainda mais quando embasada na força da argumentação
e não das armas, na vontade das maiorias e não de um partido
político ou um punhado de generais. E uma revolução que
não se limita a impor a reforma agrária somente no tocante à
propriedade da terra, mas ao uso da terra na sua função social,
econômica e ecológica. Um fenômeno que está repercutindo
no exterior e que, de tão forte, vem superando obstáculos até
aqui considerados intransponíveis, como o poder dos fazendeiros, dos
meios de comunicação e do próprio governo".
A origem do MST está nas comunidades de base e na Pastoral da Terra,
mas nos anos 80 ganhou autonomia da igreja, incorporou elementos marxistas
na análise da estrutura rural brasileira e no seu programa agrário
de inspiração socialista. Sua própria bandeira mostra
seu programa: o vermelho, a cor da revolução, é também
uma homenagem ao sangue derramado no campo; o preto, o luto pelos companheiros
caídos; o verde a esperança pela Reforma Agrária; o branco,
a luta pela paz e o homem e a mulher abraçados no centro da bandeira,
de facão em punho, representa a luta pelo socialismo. Estas palavras
são repetidas por qualquer militante do movimento em toda parte do
país.
O MST aglutina em suas fileiras analfabetos, pequenos camponeses falidos,
bóia-frias, desempregados da cidade e todos os outros miseráveis
excluídos da sociedade. Pela sua combatividade, sua "mística",
seus métodos de luta - ocupação de terras improdutivas
ou devolutas - e sua oposição às políticas neoliberais
o MST conquistou a simpatia de parte significativa dos camponeses, da população
urbana e da opinião pública apesar das constantes ofensivas
dos meios de comunicação.
Hoje, o MST é a única força efetivamente de esquerda
a militar no cenário brasileiro e até mundial. Conscientes de
sua força, de sua "latinidade", o MST ao realizar ocupações
e promovendo a Reforma Agrária, consegue realizar a coletivização
dos meios de produção, coisa raramente alcançada por
outros movimentos sociais. Em seus atos, reuniões e ocupações
é grande a referência a Zumbi dos Palmares, a Antônio Conselheiro
e a Che Guevara, que são exemplos pela sua capacidade revolucionária
e por dar a vida por uma causa".
Dos campos do Brasil, gente humilde, formada nos próprios cursos de
formação do MST, vêm as propostas para o problemas do
país, como no "Manifesto ao Povo Brasileiro", aprovado no
4° Congresso Nacional do MST, em agosto de 2000: "será necessário
que o povo brasileiro se levante, se organize e vá para as ruas, para
lutar por seus direitos históricos. É possível sim, construir
um outro projeto para o Brasil. Um Projeto Popular, voltado para as necessidades
do povo. Vamos precisar de mudanças radicais. É preciso impedir
que os bancos, as multinacionais e os ladrões do povo continuem enriquecendo.
É preciso suspender o pagamento da dívida externa. É
preciso controlar o sistema financeiro e a taxa de juros. É preciso
determinar que os bancos usem o dinheiro para financiar a produção
e não a especulação. É preciso negociar a dívida
interna e priorizar o orçamento público em educação,
saúde e agricultura. Retomar as rédeas da política econômica,
para que seja administrada por brasileiros em favor do nosso povo, rompendo
o acordo com o FMI. É preciso implementar uma reforma agrária
associada com um novo modelo agrícola, que garanta renda aos agricultores
e futuro para quem vive no meio rural".
Nunca no Brasil, um movimento social conseguiu agregar tanta gente e de condições
sociais tão precárias, como o MST, que consegue formar, a partir
de lavradores analfabetos, líderes políticos que discutem marxismo
com intelectuais em eventos internacionais. É o único movimento
que consegui falar ao esquecido do campo, que sempre viveu explorado. Os exemplos
são vários, como em Rancharia, cidade do interior de São
Paulo, a 600 Km da capital, na região de Presidente Prudente. Lá
há o acampamento Nova Conquista. Por sete anos, sob a lona preta, as
cento e quatro famílias aguardaram seus lotes. Quando a Reforma Agrária
chegou, depois de muita luta, o INCRA (Instituto de Colonização
e Reforma Agrária), responsável pela assistência aos assentados,
os abandonou novamente. Mas eles se organizaram e conseguiram, em acordo com
uma escola agrícola estadual, um curso de qualificação.
Entre os alunos está Valdomiro Crispino da Silva, 55 anos. Na assembléia,
o coletivo decidiu que as famílias deveriam fazer o curso e ele se
tornou um dos alunos mais empolgados. Trabalhador rural assentado, Valdomiro
aplicava veneno nas plantações de tomate sem usar equipamentos
de segurança. Agora, produz na sua própria terra e escuta atento
às recomendações do professor, sobre defensivos agrícolas
e copia, na letra de semi-alfabetizado o que está na lousa. Que outra
forma explicar para Valdomiro a luta de classes, senão da mística
do MST? Como tirar Valdomiro das lavouras de tomate e lhe dar oportunidade
de estudo e de dar alimentos à sua família e a outras famílias
senão pela luta do MST? Se o militante treme de indignação
perante uma injustiça do mundo, mas se sente desolado diante dos prédios
e bancos da Avenida Paulista e das filas no Mac Donald's, ele deve visitar
os assentamentos e acampamentos do MST.
Fotos: Site do MST/Gildo Aguiar