Reportagem especial: Bolívia

 



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Bolívia: descobrindo a Pachamama

Texto e fotos de Adriana Carvalho*

A professora de História, Adriana Carvalho, esteve na Bolívia no final de 2007 e traz um relato de sua viagem pelo país que já foi um dos mais ricos em recursos minerais das Américas. Clique nos tópicos que deseja ler.

As riquezas da Bolívia alimentaram o Capitalismo europeu

BolíviaEm meados de 2006 o presidente da Bolívia, Evo Morales Ayma, foi entrevistado pelo “Roda Viva”, da TV Cultura. Durante o programa, foi enfatizado o papel da Bolívia na América Latina, como sendo o país mais pobre da região. Evo respondeu a esta afirmação recordando o histórico econômico do país, da espoliação por parte da Coroa Espanhola, da condição de submissão a qual estava submetido o povo boliviano desde a chegada dos europeus. A fala do presidente evidencia uma posição política bem marcada pois, ele próprio, é descendente dos povos originários (aymara) que habitavam a região antes mesmo que ali se chamasse Bolívia (o nome é uma homenagem ao Libertador Simón Bolívar).


“As regiões mais marcadas pelo subdesenvolvimento e pela pobreza são aquelas que no passado tiveram laços mais estreitos com a metrópole e desfrutaram períodos de auge”. Quem leu As Veias Abertas da América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano, se lembrará desta passagem do livro ao caminhar pela Bolívia. O país em nada aparenta o esplendor do auge da exploração da prata e a população pouco herdou, materialmente falando, a riqueza extraída de seu solo.O presidente Evo Morales tenta reverter esse quadro

A grande imprensa apresenta a Bolívia sempre como sendo um país subdesenvolvido, com economia rural, e sua população como uma massa de miseráveis. E a imprensa brasileira aumentou essa visão quando ocorreram os episódios de nacionalização dos hidrocarbonetos, ainda no início do mandato de Evo. A televisão dos brasileiros, neste período, foi constantemente bombardeada por informações tendenciosas sobre o país e o presidente, em que foi ressaltada, em todas as ocasiões, o fator pobreza.

Como isso é possível em um país em que, na fase Colonial, até as ferraduras dos cavalos eram de prata, conforme afirma o Eduardo Galeano? A resposta para esta pergunta surge quando se analisa a lógica da sociedade na qual vivemos, pautada pela concentração dos meios de produção e da geração de riquezas apenas para poucos, o Capitalismo. A riqueza existe, mas está em algum lugar, sendo usurpada, escoada para os cofres de algum banco... já a pobreza encontrada na Bolívia não é diferente daquela que pode ser observada em qualquer outro país da América Latina pois, como certa vez disse um poeta “periferia é periferia em qualquer lugar”. Buscando “descobrir” este país, fiz uma viagem de ônibus e pecorri o país por dez dias.

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O começo da viagem: Santa Cruz

Bolívia: oposição a Morales em Santa CruzO ponto inicial da viagem foi o departamento de Santa Cruz, local onde existe uma oposição organizada e enfurecida com o presidente Evo Morales. A porta de entrada, saindo do Brasil, é cidade de Puerto Suarez onde se localiza a fronteira, há poucos minutos de Corumbá. Perto, está a cidade de Puerto Quijarro, de onde saem os transportes para a cidade de Santa Cruz. A principal bandeira da oposição tem a ver com a divisão dos recursos orçamentários da Bolívia. O argumento é o de que este departamento “carrega o país nas costas”, e por esta razão busca a autonomia financeira.

Pressionado, o presidente organizou um plebiscito no ano de 2007, onde toda a população pôde expressar sua opinião por meio do voto. Em apenas dois dos nove departamentos, a “Autonomia” ganhou. Desse modo, mantém-se a divisão dos recursos.

Como a viagem foi feita de ônibus (pela única empresa da cidade, “El Carreton”), uma vez que era de 31 de dezembro e o trem estava suspendendo suas atividades, foi possível observar a paisagem e as condições de moradia das pessoas deste departamento. No início dos 591 quilômetros que separam Puerto Quijarro de Santa Cruz, vê-se a pobreza tão relatada, as casinhas de barro, criações de ovinos, estrada de terra e a população castigada pela terra seca.

Todavia, à medida que se aproxima da capital a paisagem vai mudando, logo surgem as indústrias, e a infra-estrutura bem organizada, com ruas asfaltadas e casas bem construídas. A cidade de Santa Cruz traz em suas paredes as marcas da oposição ao governo, muitas são as pixações e os grafites que vão desde ofensas á condição indígena do presidente, passando por sua condição sexual e chegando às ameaças de morte. A população é majoritariamente branca, e circula pela cidade com carros novos e alguns importados. A cor da separação é verde e é também a bandeira localizada bem no centro da cidade.

Santa Cruz é uma cidade com aspirações cosmopolitas, muitos hotéis de alto nível, restaurantes, transportes e muitos turistas estrangeiros. Tive a oportunidade de conversar com um jovem professor inglês que está há três meses na Bolívia, fazendo trabalho voluntário junto aos animais selvagens (alimentando macacos recém-nascidos na cidade de Samaipata). O bombardeio ideológico da oposição é muito forte, e mesmo as pessoas das camadas mais baixas da sociedade cruceña são convencidas por sua argumentação. Mesmo não gozando dos benefícios da privilegiada classe dirigente de Santa Cruz, a população faz a campanha pela “Autonomia”, acreditando que obterão também algumas vantagens, como pude comprovar numa proveitosa conversa com os taxistas da cidade.

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La Paz: coração indígena

La PazDando continuidade ao “descobrimento”, cheguei a La Paz, coração indígena da Bolívia, departamento onde o presidente Evo tem apoio massivo da população. A viagem de 851 quilômetros foi mais tranqüila, pois percorre-se todo o trajeto em estrada asfaltada (o transporte, porém, ainda é precário).

Depois de algumas horas de viagem, a paisagem começa a mudar. A vegetação verde e densa dá lugar ao solo pedregoso, e aos pequenos arbustos. É a Cordilheira dos Andes! Os efeitos da altitude já começam a aparecer (sensação de pressão na cabeça e nos ouvidos e uma leve dor de cabeça). No interior do ônibus, equipado com aparelho de som, ecoa a famosa Cumbia. As moradias são raras, o que se vê são pequenos povoados com poucas casas e comércio, pequenas estradinhas de terra cortam a montanha. Talvez seja este trecho o que deu sabor à viagem, pois a paisagem é idílica e as montanhas parecem não ter mais fim, apresentando uma coloração esverdeada.

Depois de mais de vinte horas de viagem, começa a surgir uma paisagem mais urbana, indícios de que La Paz se aproximava. O coração começa a disparar! Antes de La Paz, esta o município de “El Alto” (4100 m de altitude!), na verdade uma extensão do primeiro pois, no alto estão alguns serviços que, por questões geográfias, não podem ser executados em La Paz, o aeroporto por exemplo.

BolíviaNa entrada da cratera onde se localiza La Paz há um pedágio (assim como em toda a extensão da estrada asfaltada) e, passando o pedágio, é possível contemplar a cidade. Uma visão inacreditável! A cidade se localiza dentro de um “buraco”, em volta estão as moradias e embaixo, o centro comercial e alguns prédios. A montanha cerca toda La Paz. A esta altura a leve dor de cabeça já se transforma em um transtorno, e a visão fica turva, pois estamos a uma altitude de quase 4.000m em relação ao nível do mar.

Bolívia: La PazDescendo para a cidade já é possível observar as manifestações explícitas de apoio ao presidente, através da pixações e grafitagens nos muros. A infra-estrutura é absolutamente distinta de Santa Cruz, pois a impressão que se tem é a de que pode se avistar os morros do Brasil. A visão desde baixo nos trouxe lembranças da Vila Brasilândia (bairro onde moro). As ruas são povoadas por vendedores ambulantes que comercializam cds folclóricos, roupas, bebidas quentes e frias, bolsas, blusas, artigos importados da China, sapatos, material contrabandeado de sítios arqueológicos, meias, comidas e toda sorte de “lembrancinhas”, formando um verdadeiro mosaico de cores e cheiros. A parte mais inusitada dessa paisagem está diante da Igreja San Francisco, onde há uma feira com mais de 40 barracas especializadas em roupas para o Menino Jesus.

Os olhos começam a arder, por conta da fumaça que sai dos escapamentos dos micro-ônibus que fazem o transporte coletivo na cidade, juntamente com as “jardineiras”. A localização geográfica da cidade não permite que o ar se dissipe, o que faz com que a mistura de gases tóxicos irritem os olhos e a garganta, efeito agravado pela falta de oxigênio. Outro fator que afeta o organismo dos viajantes despreparados é o frio. Durante a estadia na cidade, enfrentei temperaturas de até 8ºC. Neste momento, percebemos o papel dos vendedores ambulantes!

Assim como a infra-estrutura, a população de La Paz é bem distinta da que se vê em Santa Cruz, sendo majoritariamente indígena. As tradicionais “cholitas”, o som das zampoñas, as crianças atadas às costas das mães, as pessoas falando em quéchua e aymara, são alguns dos fatores que fazem com que se esqueça dos efeitos da altitude.

BolíviaEm La Paz é possível sentir que o magnífico império Inca ainda paira em algum lugar.As lembranças dessa civilização ainda estão no ar, coisas que o tempo e a colonização não conseguiram apagar. O passado colonial, no entanto, é constantemente lembrado, através da arquitetura das igrejas e de alguns edifícios públicos. Outro fator que a cidade trata de resgatar é o processo de Independência.

Esta História foi oficializada não apenas através do nome do país, mas surge em nomes de ruas, estátuas, placas e outros símbolos que trazem soldados que lutaram contra a tirania da coroa espanhola.

BolíviaA sensação que se tem é a de que tudo no país tem alguma referência a Simón Bolívar: hotéis, músicas, restaurantes, empresas de ônibus e ruas, além do principal time de futebol do país. Esta análise fica interessante quando se observa a relação do governo de Evo Morales com Hugo Chavez, que proclama a Revolução Bolivariana como um caminho para a emancipação da América Latina, libertando-a das garras imperialistas (EUA), ou seja, o mito (Bolívar) é reconstruído e ressignificado, sendo utilizado para atender as demandas da atualidade.

A estadia entre os paceños (naturais de La Paz) foi interrompida por conta do eminente isolamento da cidade. Durante alguns dias, as principais rotas de saída foram bloqueados por motoristas do Transporte Intermunicipal, que protestavam contra o aumento dos impostos automotivos (que haviam subido para 150 dólares). O bloqueio se deu através da colocação de imensas pedras, extraídas da Cordilheira, ao longo da estrada, além da formação de barreiras humanas, o que gerou alguns conflitos entre a policía e os manifestantes. Outro grupo optou por fazer greve de fome diante do palácio de governo. Por conta desta crise, não podemos ir além (adiando o sonho de conhecer Tiahuanaco e Copacabana), fomos para o sul utilizando um dos únicos caminhos ainda abertos.

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O retorno pela Cordilheira do Andes

BolíviaAté a fronteira com a Argentina foram mais 898 quilômetros, percorridos sobre a Cordilheira. No caminho, a monumental Potosí, com sua arquitetura colonial e estradas de pedra. Outro ponto de parada foi Oruro, que já se preparava para a tradicional Diablada (carnaval orureño), e a surpresa surgiu quando observamos a estrutura da cidade, sendo extremamente precária para ser tão famosa. Além destas gloriosas cidades, o ônibus passou por pequenos vilarejos, localizados sobre a montanha, com as casinhas pequenas e criações de alpaca.

Para um “descobrimento”, o tempo de viagem foi curto, mas valeu para uma primeira aproximação. Estar em contato com a cultura boliviana é uma experiência intensa, que requer tempo e preparo físico, além do preparo psicológico, uma vez que poucos estão acostumados a vislumbrar tanta beleza.

Para além da fronteira com a Argentina, as estradas cortam a montanha, que segue seu curso, silenciosa, exigindo todo o respeito que lhe é devido. A Cordilheira dos Andes é como uma velha senhora, que já presenciou muita história, e teve a oportunidade de acolher em si diferentes gerações e civilizações, que lutaram e derramaram muito sangue, homens que a dividiram em países e lhe deram muitos nomes, acreditando que a dominavam ao separá-la em bandeiras. Mas a montanha segue firme, abrigando, inclusive, inúmeros cemitérios ao longo do trecho, que devolvem à ela a energia que foi um dia por ela emprestada.

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* Adriana de Carvalho, professora de História e apaixonada por América Latina. Clique aqui para entrar em contato.

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"Como então desgarrados da Terra..."

 


 

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