A professora de História, Adriana Carvalho, esteve na Bolívia no final de 2007 e traz um relato de sua viagem pelo país que já foi um dos mais ricos em recursos minerais das Américas. Clique nos tópicos que deseja ler.
As riquezas da Bolívia alimentaram o Capitalismo europeu
A grande imprensa apresenta a Bolívia sempre como sendo um país subdesenvolvido, com economia rural, e sua população como uma massa de miseráveis. E a imprensa brasileira aumentou essa visão quando ocorreram os episódios de nacionalização dos hidrocarbonetos, ainda no início do mandato de Evo. A televisão dos brasileiros, neste período, foi constantemente bombardeada por informações tendenciosas sobre o país e o presidente, em que foi ressaltada, em todas as ocasiões, o fator pobreza. Como isso é possível em um país em que, na fase Colonial, até as ferraduras dos cavalos eram de prata, conforme afirma o Eduardo Galeano? A resposta para esta pergunta surge quando se analisa a lógica da sociedade na qual vivemos, pautada pela concentração dos meios de produção e da geração de riquezas apenas para poucos, o Capitalismo. A riqueza existe, mas está em algum lugar, sendo usurpada, escoada para os cofres de algum banco... já a pobreza encontrada na Bolívia não é diferente daquela que pode ser observada em qualquer outro país da América Latina pois, como certa vez disse um poeta “periferia é periferia em qualquer lugar”. Buscando “descobrir” este país, fiz uma viagem de ônibus e pecorri o país por dez dias. O começo da viagem: Santa Cruz
Pressionado, o presidente organizou um plebiscito no ano de 2007, onde toda a população pôde expressar sua opinião por meio do voto. Em apenas dois dos nove departamentos, a “Autonomia” ganhou. Desse modo, mantém-se a divisão dos recursos. Como a viagem foi feita de ônibus (pela única empresa da cidade, “El Carreton”), uma vez que era de 31 de dezembro e o trem estava suspendendo suas atividades, foi possível observar a paisagem e as condições de moradia das pessoas deste departamento. No início dos 591 quilômetros que separam Puerto Quijarro de Santa Cruz, vê-se a pobreza tão relatada, as casinhas de barro, criações de ovinos, estrada de terra e a população castigada pela terra seca. Todavia, à medida que se aproxima da capital a paisagem vai mudando, logo surgem as indústrias, e a infra-estrutura bem organizada, com ruas asfaltadas e casas bem construídas. A cidade de Santa Cruz traz em suas paredes as marcas da oposição ao governo, muitas são as pixações e os grafites que vão desde ofensas á condição indígena do presidente, passando por sua condição sexual e chegando às ameaças de morte. A população é majoritariamente branca, e circula pela cidade com carros novos e alguns importados. A cor da separação é verde e é também a bandeira localizada bem no centro da cidade. Santa Cruz é uma cidade com aspirações cosmopolitas, muitos hotéis de alto nível, restaurantes, transportes e muitos turistas estrangeiros. Tive a oportunidade de conversar com um jovem professor inglês que está há três meses na Bolívia, fazendo trabalho voluntário junto aos animais selvagens (alimentando macacos recém-nascidos na cidade de Samaipata). O bombardeio ideológico da oposição é muito forte, e mesmo as pessoas das camadas mais baixas da sociedade cruceña são convencidas por sua argumentação. Mesmo não gozando dos benefícios da privilegiada classe dirigente de Santa Cruz, a população faz a campanha pela “Autonomia”, acreditando que obterão também algumas vantagens, como pude comprovar numa proveitosa conversa com os taxistas da cidade. La Paz: coração indígena Depois de algumas horas de viagem, a paisagem começa a mudar. A vegetação verde e densa dá lugar ao solo pedregoso, e aos pequenos arbustos. É a Cordilheira dos Andes! Os efeitos da altitude já começam a aparecer (sensação de pressão na cabeça e nos ouvidos e uma leve dor de cabeça). No interior do ônibus, equipado com aparelho de som, ecoa a famosa Cumbia. As moradias são raras, o que se vê são pequenos povoados com poucas casas e comércio, pequenas estradinhas de terra cortam a montanha. Talvez seja este trecho o que deu sabor à viagem, pois a paisagem é idílica e as montanhas parecem não ter mais fim, apresentando uma coloração esverdeada. Depois de mais de vinte horas de viagem, começa a surgir uma paisagem mais urbana, indícios de que La Paz se aproximava. O coração começa a disparar! Antes de La Paz, esta o município de “El Alto” (4100 m de altitude!), na verdade uma extensão do primeiro pois, no alto estão alguns serviços que, por questões geográfias, não podem ser executados em La Paz, o aeroporto por exemplo.
Os olhos começam a arder, por conta da fumaça que sai dos escapamentos dos micro-ônibus que fazem o transporte coletivo na cidade, juntamente com as “jardineiras”. A localização geográfica da cidade não permite que o ar se dissipe, o que faz com que a mistura de gases tóxicos irritem os olhos e a garganta, efeito agravado pela falta de oxigênio. Outro fator que afeta o organismo dos viajantes despreparados é o frio. Durante a estadia na cidade, enfrentei temperaturas de até 8ºC. Neste momento, percebemos o papel dos vendedores ambulantes! Assim como a infra-estrutura, a população de La Paz é bem distinta da que se vê em Santa Cruz, sendo majoritariamente indígena. As tradicionais “cholitas”, o som das zampoñas, as crianças atadas às costas das mães, as pessoas falando em quéchua e aymara, são alguns dos fatores que fazem com que se esqueça dos efeitos da altitude.
Esta História foi oficializada não apenas através do nome do país, mas surge em nomes de ruas, estátuas, placas e outros símbolos que trazem soldados que lutaram contra a tirania da coroa espanhola.
A estadia entre os paceños (naturais de La Paz) foi interrompida por conta do eminente isolamento da cidade. Durante alguns dias, as principais rotas de saída foram bloqueados por motoristas do Transporte Intermunicipal, que protestavam contra o aumento dos impostos automotivos (que haviam subido para 150 dólares). O bloqueio se deu através da colocação de imensas pedras, extraídas da Cordilheira, ao longo da estrada, além da formação de barreiras humanas, o que gerou alguns conflitos entre a policía e os manifestantes. Outro grupo optou por fazer greve de fome diante do palácio de governo. Por conta desta crise, não podemos ir além (adiando o sonho de conhecer Tiahuanaco e Copacabana), fomos para o sul utilizando um dos únicos caminhos ainda abertos. O retorno pela Cordilheira do Andes
Para um “descobrimento”, o tempo de viagem foi curto, mas valeu para uma primeira aproximação. Estar em contato com a cultura boliviana é uma experiência intensa, que requer tempo e preparo físico, além do preparo psicológico, uma vez que poucos estão acostumados a vislumbrar tanta beleza. Para além da fronteira com a Argentina, as estradas cortam a montanha, que segue seu curso, silenciosa, exigindo todo o respeito que lhe é devido. A Cordilheira dos Andes é como uma velha senhora, que já presenciou muita história, e teve a oportunidade de acolher em si diferentes gerações e civilizações, que lutaram e derramaram muito sangue, homens que a dividiram em países e lhe deram muitos nomes, acreditando que a dominavam ao separá-la em bandeiras. Mas a montanha segue firme, abrigando, inclusive, inúmeros cemitérios ao longo do trecho, que devolvem à ela a energia que foi um dia por ela emprestada. * Adriana de Carvalho, professora de História e apaixonada por América Latina. Clique aqui para entrar em contato. Se você gostou desta reportagem, leia também:
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