Reportagem: de ônibus para o Chile

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Para o Chile, do Terminal Tietê.
Por Alexandre Barbosa
Chile - Caracol
Trecho da Cordilheira dos Andres conhecido como Caracol: momento de grande emoção

Decisão tomada em ir para Santiago, a capital do Chile. Ótimo, mas que tal fazer um percurso diferente? Deixe de lado a idéia de sair pelo aeroporto de Cumbica e embarque no Terminal Rodoviário do Tietê para uma viagem de 54 horas rumo à Cordilheira dos Andes.


As vantagens não estão apenas no preço. A passagem aérea São Paulo – Santiago fica em torno de U$ 430.00 (aproximadamente R$ 800) enquanto que o bilhete rodoviário custa R$ 330,00. Sim, de avião a viagem fica reduzida a apenas duas horas e meia, mas a proposta deste roteiro é aventura, aprendizado e a oportunidade de ver de perto uma das paisagens mais belas do continente americano.


Duas empresas fazem o percurso cobrando o mesmo preço, Chile Bus (11) 6221-6239 e Pluma - 0800 6460 300, ambas com guichês no setor Internacional do Terminal Tietê. Deve-se comprar a passagem com até uma semana de antecedência, principalmente nas férias. A possibilidade de adquirir apenas o bilhete de ida (R$ 330,00) é apenas viável para quem não tem previsão da volta e pode trocar muitos dólares no Chile. As partidas são semanais, às tardes, e vale o já conhecido procedimento de chegar com pelo menos uma hora de antecedência.

O único documento exigido é o Registro Geral, tanto no embarque quanto nas alfândegas. Além da bagagem normal, leve outra de mão, com troca de roupa completa, blusa pesada e higiene pessoal. São feitas duas paradas em locais específicos com chuveiros e não adianta insistir para pegar apenas uma camiseta, pois as malas são lacradas no bagageiro que só pode ser aberto no Chile. Quem não lembra desse detalhe ou pede uma roupa emprestada ou vira a camisa do avesso.

Amizades a bordo e neve na estrada

O “rodomoço”, como é conhecido o profissional que acompanha os dois motoristas, auxilia os passageiros em toda a viagem. No ônibus são servidos dois cafés da manhã, um jantar e um almoço, com direito a vinho em caixa longa vida, especialidade chilena. Mesmo assim levar água, salgadinhos e chocolate, nunca é demais. Saindo de São Paulo, Violeta Parra cantando Volver a los 17 dá o clima enquanto o rodomoço explica rotinas.

Há famílias de chilenos completas, mas são os mais jovens que preferem este tipo de viagem. Entre os brasileiros, surfistas a procura das ondas de Viña del Mar e solteiros com espírito de aventura. As amizades nascem rapidamente. Apesar de ser equipado com vídeo, rádio e TV não há paciência que suporte ficar sentado por mais de dois dias. Em pouco tempo formam-se rodas em torno de uma poltrona para jogar cartas, cantar e contar histórias. Quando chega a noite, não é raro essas rodas se transformarem em casais que vão aproveitar bem melhor as horas dentro do ônibus.

A primeira parada é em Curitiba, apenas para pegar mais passageiros. A manhã chega já na Serra Gaúcha onde as nuvens baixas são o prenúncio de paisagens cada vez mais bonitas. A saída do Brasil leva praticamente o dia todo, com direito a uma parada para refeição, e já é tarde quando se cruza a fronteira com a Argentina, onde os moradores locais, de ambos os países, aproveitam para tentar vender uma série de bugigangas. Documentação acertada, segue a etapa mais entediante: atravessar as aparentemente intermináveis planícies argentinas.

Fronteira Argentina – Chile

Fronteira Chile Argentina
Em Mendoza já é possível ver a beleza da Cordilheira dos Andes

Em Mendonza, divisa da Argentina com Chile, aos pés da Cordilheira dos Andes todos descem para a higienização do ônibus. Exigência aduaneira que contribui para refrescar o ambiente interno e dá a possibilidade de uma volta pela cidade. Não há tempo para visitar muitas atrações. Vale a pena cruzar a ponte sobre o rio, sentir o cheiro de talco das águas que descem caudalosas pelo desgelo da montanha, ver a feira, observar o sistema de irrigação dos jardins – Mendoza tem o clima muito seco – e tirar fotos ao lado do relógio de Sol.

Na subida da cordilheira deve-se controlar o sono – o ar rarefeito e mudança de pressão causam sonolência – para observar o monte Aconcágua e fazer fotos das várias formações geológicas. As montanhas têm coloração avermelhada e os chilenos lembram de músicas de Victor Jara, o mais popular cantor chileno que homenageou os mineiros, entre tantos outros trabalhadores.

No cume está o Paso de los Libres, a fronteira com o Chile. É fácil perceber que a aduana chegou quando aqueles que levavam frutas nas mochilas passam a comê-las desesperadamente. O governo chileno proíbe a entrada de produtos agrícolas sem inspeção para evitar supostas contaminações. A vistoria da fronteira é rigorosa, todas as malas são abertas e os policiais recolhem de livros a pó de café. Um cheiro da ditadura passada ainda está no ar.

Brasileiros não enfrentam problemas com documentação, a burocracia fica com os chilenos que estão voltando ao país. Para passar o tempo, o turista pode aproveitar para avisar alguém da chegada usando as cabines telefônicas e se divertir vendo neve por toda parte, mesmo no verão.

O momento de maior emoção é a descida do Caracol. Os que conhecem, começam a rezar. Muitos fecham os olhos e outros ficam eufóricos. O melhor motorista assume o volante para descer uma estrada estreita, com curvas extremamente fechadas. Do alto, a visão é realmente a de um caracol e de perto se percebe que um pequeno erro pode levar o veículo a rolar montanha abaixo. O término do Caracol tem a mesma sensação de um pouso bem feito e não faltam palmas para o condutor.

Deserto do Atacama - Hornitos
Deserto do Atacama: vermelho do solo em contraste com o azul do céu.

Falta pouco. A última refeição a bordo vem fresca de outro ônibus vindo em sentindo contrário. Antes de pegar a Panamericana, rodovia que corta todo o país, chega o momento de cruzar o túnel. Dois escudos marcam a fronteira exata com o Chile e os chilenos começam a cantar, bater palmas e gritar. Alguns choram. Os brasileiros são desafiados a cantar mais alto, mas é difícil superar a alegria da volta à pátria. Rapidamente chega-se a Santiago, cansados, verdade. Mas com a sensação de que a viagem pelo Chile, mesmo começando oficialmente naquele momento, já é uma aventura a ser contada.

Lugares que você não pode deixar de conhecer no Chile

Chile San Pedro de AtacamaSan Pedro de Atacama - No meio do deserto, uma cidade com traços coloniais, mistério e belezas naturais. A salinidade do solo conservou múmias indígenas que podem ser conhecidas no museu. Vale a visita ao Valle de La Luna. Tudo lá é muito caro e o espírito de aventura deve se sobrepor à necessidade de conforto. Para chegar, pegue um ônibus até a cidade de Calama e outro para San Pedro. Leve muita água e música para ouvir pois o deserto vai mexer com sua mente.

 

Chile AtacamaDeserto de Atacama

É preciso ter mente forte para resistir por dias sem ver um único verde, apenas os morros vermelhos e o céu de um incrível azul. O norte do Chile carrega um misto de tristeza e beleza. Em Calleta Hornos, que virou uma espécie de refúgio turístico da classe média chilena, é possível banhar-se no gelado Pacífico e aquecer-se no escaldante deserto durante o dia. De noite, a temperatura cai de forma impressionante.

 

 

 

Chile La MonedaPalácio de La Moneda

Sede do executivo chileno,é impossível não se emocionar ao ver aquelas paredes e lembrar dentro delas morreu Salvador Allende. As imagens e sons do bombardeio de 11 de setembro de 2003 ainda parecem ecoar.

 

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