Saiba mais sobre SECOS & MOLHADOS
Por José de Almeida Amaral Jr.
Quando em 1983 saiu no Brasil a primeira enciclopédia do rock produzida por estas terras brejeiras, como edição especial da célebre revista Som Três, não havia nenhum verbete falando daquele pessoal que aparecera havia 10 anos. E sumira meses depois. Estranho. Afinal, aqueles sujeitos não eram roqueiros? Foram, então, grupo de MPB? Uma banda de fados elétricos? Um conjunto de bardos psicodélicos tardios? Caramba, o que? Bem, classifica-los, até hoje, é difícil. Mas, isso também não é importante, pois, uma coisa é inquestionável: eles protagonizaram o maior fenômeno musical popular daqueles anos no país. Em plena ditadura militar.
Dezembro de 1968. O governo brasileiro editou o Ato Institucional nº 5 ampliando a censura aos meios de comunicação, já devidamente monitorados após o golpe de estado iniciado em 64, partindo então para a perseguição daqueles que faziam resistência ao regime. Jornalistas eram dominados. Músicos como Taiguara, Geraldo Vandré e Chico Buarque foram calados. A peça “Roda Viva” no Espaço Galpão do Teatro Ruth Escobar em São Paulo foi interrompida quando o CCC - Comando de Caça aos Comunistas invadiu e depredou as dependências da casa, agredindo os atores; o elenco de “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos também foi ameaçado. Os ‘tropicalistas’ Gil e Caetano resolveram cair fora e, ao voltar em 72, não tinham chances de expressão mais ampla. Em 69 o general Costa e Silva passou o comando ao sucessor general Médici que ampliou a repressão responsabilizando o ministro da Justiça da ‘preservação dos valores morais da sociedade’. Um país reprimido, tolhido em sua liberdade de expressão. Tempos difíceis por todo o continente: era a ‘Guerra Fria’.
Nessa época, João Ricardo Carneiro Teixeira Pinto – português nascido em Ponte do Lima – trabalhava no jornal Ultima Hora em São Paulo. Além disso, muito musical, burilava um som diferente, utilizando viola de 10 cordas, violão de 12, gaita e bongô. Participava de eventos teatrais. Interessado em avançar com um trabalho alternativo em 1971 por indicação da cantora e compositora Luli vai ao Rio de Janeiro conhecer o cantor Ney de Souza Pereira, cuja voz e interpretações poderiam criar uma bela simbiose naquela proposta de caminhada, resultando em algo novo e desafiante. Ney nasceu na pequena cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Porém, seu destino eram cidades maiores. Em Brasília, quando jovem, foi convidado a participar de um festival universitário. Chegou formar um quarteto vocal. De espírito aventureiro rodou algumas cidades e fixou-se no Rio de Janeiro, onde fez teatro e acabou por conhecer Luli que o incentivou a desenvolver mais o canto. E o encontro de João Ricardo com Ney, de fato, timbrou. As coisas iriam começar a acontecer.
Várias canções já estavam criadas. Incluindo parcerias de João Ricardo com Luli, como “Fala” e “O Vira”. Havia também um terceiro membro no grupo que se formava: Gerson Conrad, paulista, estudante de arquitetura e violonista, amigo de João Ricardo. Faltava, assim, o acabamento. E isto viria com muito ensaio e das experiências cênicas que possuíam.
Com vários meses de labuta foram tocar num espaço do Teatro Ruth Escobar, o 'Casa de Badalação e Tédio', com jogos, revistas e shows eventuais. O pessoal do teatro que conhecia Ney o convidou para levar seu grupo a se apresentar lá. Rolou então a primeira apresentação. Foi um buxixo. Pediram para repetir o show por outras vezes. Começou a pintar cada vez mais gente para vê-los. E o entusiasmo estimulava inovações. Ney conta que na última ocasião pegou um couro de jacaré e o amarrou nas costas, arrastando o rabo no chão. Ruth Escobar apareceu por lá e ficou horrorizada. Colocou todos para fora dizendo que “não queria maconheiros na sua casa”. Prenuncio da agitação que logo viria. Um empresário lhes ofereceu a gravação de um disco. Várias gravadoras tinham recebido a fita-demo e não haviam se ligado. Aquela, assim, seria a hora de levantar vôo definitivo. Secos & Molhados começariam a fazer história.
Moracy do Val foi o primeiro empresário. Ele convenceu a Continental contratá-los. A gravadora projetou vender 1.500 em um ano. Em maio de 1973 entravam no estúdio para o registro fonográfico. Quinze dias, em sessões diárias de seis horas, deixaram numa mesa de 4 canais as 13 faixas do LP que causou tremendo reboliço. Virou o objeto do desejo de consumo da moçada. Um fenômeno. Em uma semana tinham quebrado as projeções dos diretores da Continental. Em plena crise do petróleo, matéria prima de onde sai o vinil, a gravadora começou a usar os discos que não estavam vendendo como insumo: derretiam para utilizá-los no deles. Há quem diga que emplacaram um milhão de cópias não computadas.
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Contabilidades à parte, Ney - com o sobrenome artístico Matogrosso - mais João Ricardo, Gerson Conrad e Marcelo Frias, baterista dos tempos de ensaio, tornaram-se o assunto do momento. Personagens que explodiram pelas ondas de rádio e telas de tv país afora. Fantástico. A alquimia sonora, além do quarteto, contou com os ingredientes cedidos por Sérgio Rosadas, nas flautas; John Flavin, nas guitarras e violão de 12; Willy Verdaguer, no baixo; Emilio Carrera, no piano e Zé Rodrix, piano, ocarina e sintetizador Moog.
Na bolacha – não tinha MP3 e nem DVD naqueles idos –- tudo começa com o baixo em “Sangue Latino” (João Ricardo & Paulo Mendonça) tocado pelo ex-Beat Boys, o argentino Verdaguer - que acompanhou Caetano Veloso em “Alegria, Alegria” e Gal Costa em “Divino Maravilhoso” nos festivais da Record e seria, mais tarde, em 1979, um fundador do Raíces de América. O ouvinte é capturado. Vai seguir cantando cada um dos temas até o último sulco da música “Fala” (João Ricardo & Luli) no lado B, sob o acorde eletrônico do órgão de Zé Rodrix. Uma viagem e tanto. Além disso, o álbum dispunha no encarte as letras e era apresentado por uma foto de Antonio Carlos Rodrigues, do jornal ‘Ultima Hora’, amigo de João Ricardo. Capa muito bem bolada: uma mesa de pães e vinhos com quatro pratos postos contendo a cabeça de cada um dos membros da banda. Em 2001 a Folha de S. Paulo realizou enquete envolvendo 150 pessoas ligadas ao mundo musical e das artes plásticas. Esse trabalho foi eleito a melhor capa da história da MPB.
Secos & Molhados, portanto, não era somente som. Era, igualmente, visual. E Ney tem um papel fundamental nisso. Criou para os espetáculos mascaras, pintando o rosto com tintas e purpurinas. Vestia roupas diferentes, leves, que facilitavam os movimentos de seu corpo esguio. Essa atitude e o impacto que causou, levou com que João Ricardo e Gérson também se maquiassem e pusessem vestes exóticas. Penas, estrelas, colares, broches, brilhos. Tudo para bailar corujas e pirilampos, entre os sacis e as fadas...
Uma sucessão de shows pelo Brasil afora em locais completamente lotados ocorreu. Enquanto os conservadores torciam o nariz e vociferavam preconceitos comportamentais, mais gente não perdia suas aparições. Inclusive os próprios tradicionalistas. Foram prodígio midiático numa era de expansão das telecomunicações dentro de um país continente. E cerceado pela ditadura.
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Ney conta que adorava o repertório, basicamente produzido pelo parceiro João Ricardo. Arriscou defini-los assim em seu sitio na web: “O conceito era a palavra, eram basicamente poemas musicados. Era essa a nossa grande distinção. No nosso repertório estavam poemas do pai do João Ricardo, o famoso poeta português João Apolinário. Nossa postura era de rock, mas não fazíamos rock'n'roll. Nossa postura era desafiadora, transgressora, mas o repertório era pop.” Porém, mais adiante afirma: “É bom lembrar que o Secos e Molhados, apesar de cantar letras de cunho literário, era essencialmente um conjunto de rock.” Ora, bão, balalão, senhor capitão, tirai este peso do meu coração: não seriam eles um grupo regional ao som de pífano e violão?
Ciúmes, grana e enguiços afins contribuíram para que o início e o fim estivessem tão juntos. Eles saíram do Brasil e foram até o México. Tocaram em televisão com transmissão para os EUA, onde havia sido lançado o primeiro LP, assim como Portugal. Coincidência ou não, logo após esta excursão, se projetou no show business a banda norte-americana Kiss, quarteto também maquiado e cheio de pirotecnias no palco. Em junho de 1974 voltam ao estúdio para gravar o novo disco a ser lançado também pela Continental, empresa de capital brasileiro, como da primeira vez. Em agosto sai o esperado segundo LP onde é demonstrada a preocupação cada vez maior de João Ricardo com as letras e também se ressaltava a poesia de Julio Cortazar, Fernando Pessoa e Oswald de Andrade. O conjunto apresenta-se na capa como um trio, sem Marcelo Frias, tendo seus famosos rostos mascarados sobrepostos com vime como garrafas de vinho num fundo preto. A mais pedida nas paradas das rádios foi a canção “Flores Astrais” (João Ricardo & João Apolinário).
No entanto, o álbum abre intenso com estas palavras de Cortazar musicadas por João Ricardo: “ahi no lejos/ las anguilas laten/ su imenso pulso/ su planetário giro/ todo espera el ingreso/ em una danza/ que ninguna Izadora danzó/ nunca de este lado del mundo/ tercer mundo global/ del hombre sin orillas/ chapoteador de história/ vispera de si mismo.” Uma beleza. Contudo, a promoção do poeta e letrista João Apolinário, pai de João Ricardo, como empresário do grupo foi a gota d’água que faltava e levou a aventura da banda ao seu encerramento prematuro. Ney e Gerson estavam cansados da centralização nas mãos dele, fora intrigas e despeitos.
Aquilo consumou o fato. Em agosto de 74 Ney pulava fora. Nem deu para divulgar o novo disco. Foi cada um para o seu lado. Anos depois, João Ricardo ainda arriscaria outras tentativas de novo S&M. Todavia, sem comparações. Gerson apostou na arquitetura. E Ney Matogrosso foi quem, indiscutivelmente, teve maior projeção. Gravou logo ao sair do grupo com a lenda argentina Astor Piazzola e em 1975 lançou seu LP solo “Homem de Neandertal”, tema de Luis Carlos Sá. Nem com Prece Cósmica voltariam mais a trazer outra Primavera nos Dentes.
“Toada & Rock & Mambo & Tango & etc.”, com seus 2’08 min., a 13ª faixa do disco de 1974 é o ultimo suspiro daquela aventura. E o título sintetiza o que foi aquele S&M: um trabalho inovador, talentoso, que deixou saudades no campo da música popular. Quem viveu aqueles meses bem sabe. Quem lá não esteve, sinto muito. Mas, não deixe de conhecê-los. Seus IPods agradecerão.
José de Almeida Amaral Jr. é paulistano, campeão de futebol de botão de sua rua na adolescência, toca clarineta nas tardes de sábado ao lado do seu cachorro e lê gibis de Mafalda.
Fontes:
http://www2.uol.com.br/ziriguidum/perfil
http://www2.uol.com.br/neymatogrosso/home.html