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Rose NogueiraTortura é um tema que não pode ser esquecido!

Textos e fotos por Viviane Freitas*

A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais de SP, Rose Nogueira, conta um pouco da luta para que fatos históricos não caiam no esquecimento.

A abertura dos arquivos militares
Rose Nogueira

Um dos assuntos que mais chamam a atenção na história do país é a resistência na abertura dos arquivos da ditadura militar. Grupos e entidades como o Tortura Nunca Mais travam batalhas para conseguir ter acesso a esse material.

“Conhecer a história é muito importante para não repetirmos os mesmos erros”, afirma a jornalista Rose Nogueira. Ela conta um pouco da diferença do processo de abertura dos arquivos do Brasil em relação a paises como Chile e Argentina.

Para Rose, a história do Brasil é diferente de outros paises latino-americanos, pois ele é muito maior geograficamente e sua história também é diferente. Ela cita como exemplo os movimentos de proclamação da República e a Independência. “Sempre que havia um clamor entre os movimentos sociais se dava um golpe para coibir”.

Um fato histórico vergonhoso para o Brasil foi a guerra do Paraguai. O país vizinho foi destruído e até os dias atuais não conseguiu se recuperar do genocídio. “Aprendemos na escola que Solano Lopez era um ditador, embora ele fosse até duro, caudilho, mas lá existia uma distribuição de renda mais justa que no Brasil”, analisa Rose

“Uma das razões para a resistência na abertura dos arquivos apresentada pelo exército é não mostrar os documentos da guerra do Paraguai”, explica a presidente que acredita que não tem sentido ocultar esses arquivos como não tem sentido ocultar os arquivos do período da ditadura militar.

O grupo Tortura Nunca Mais é a favor da abertura de todos os arquivos existentes no país e não somente os da ditadura. “Temos o direito de conhecer a nossa história”. Rose ainda foca que a história do Brasil é baseada na tortura. Começou com a tortura dos índios, depois dos negros e em seguida a dos pobres, dos adversários políticos e novamente dos pobres da periferia.

Ela ressalta que o ensinamento da tortura é passado de um para o outro e lembra de um caso recente de um maníaco que confessou três crimes que já tinha sido solucionado e que três pessoas inocentes já haviam sido julgadas e condenadas pelos crimes do maníaco. Esses rapazes ficaram presos mesmo jurando inocência. Rose se pergunta quantas outras pessoas não estão presas por crimes que não cometeram porque foram obrigados a assinar uma confissão. “Quando se vai preso, espera-se que se vai apanhar”, desabafa.

Para o Grupo Tortura Nunca Mais, a abertura dos arquivos militares não é só para conhecer os depoimentos dos presos, mas sim saber quais foram as decisões e quem decidiu as execuções no período da ditadura. “Nós queremos saber, por exemplo, quem comandou a destruição das ferrovias que causaram mais de 200 mil desempregados. Quem comandou essa decisão que favoreceu a indústria automobilística e o transporte rodoviário”, questiona. “É uma decisão muito séria, que mexeu com o Brasil inteiro e deixou cidades à míngua.”

Rose ressalta a importância de entender que a ditadura militar não se resumiu só a torturas para quem lutava contra. Para a sociedade, o regime militar causou ainda mais estragos. “A ditadura trouxe levas de pessoas para as grandes cidades e que até hoje estão desocupadas. A ditadura fez isso também, ela matou de fome, de desespero e de desesperança. Eles desmontaram o país com as entregas (a grupos estrangeiros) absurdas que fizeram, fazendo de conta que eram nacionalistas”.

Rose Nogueira, acredita que para haver a abertura dos arquivos é necessário apenas boa vontade política. E a sociedade precisa pressionar para que não aconteça com os arquivos da ditadura o mesmo que aconteceu com os arquivos da escravidão que foram queimados por Rui Barbosa, pois para ele a escravidão era vergonhosa demais, então precisava ser esquecida.

Mas para o Grupo Tortura Nunca Mais, a história não pode ser esquecida, ela tem que ser relembrada, para que não aconteçam os mesmos erros.

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Guerrilha do Araguaia, Vala de Perus e os Direitos Humanos na atualidade

A guerrilha do Araguaia foi outro fato marcante na história brasileira. Até hoje as famílias das vítimas não puderam enterrar seus mortos. A exceção foi Dona Julieta Petit da Silva, que enterrou Maria Lúcia Petit, a única identificada até agora. Dona Julieta tem mais dois filhos que eram guerrilheiros no Araguaia e até hoje não foram identificados. A guerrilha do Araguaia tem mais de 60 desaparecidos, segundo Rose Nogueira. “Várias famílias já foram para Brasília pressionar, é preciso dizer onde estão aquelas pessoas”.

Os desaparecidos da ditadura são feridas abertas para as famílias e cada nova notícia de identificação gera ansiedade e a esperança de enterrar os mortos, para só assim conseguirem continuar suas vidas. Portanto, fatos como a descoberta da vala de Perus, durante o governo da prefeita Luíza Erundina, são essenciais para que os crimes da ditadura não caiam no esquecimento.

Em 1990, no cemitério Dom Bosco na periferia da cidade de São Paulo, foi aberta a vala comum de Perus, onde foram encontradas 1049 ossadas. Esse cemitério foi construído em 1971 pela prefeitura, que estava sob a gestão do Paulo Maluf. Entre essas ossadas, suspeita-se que estejam vários presos políticos de acordo com registros do próprio cemitério, que logo quando foi inaugurado recebia pessoas sem identificação, o que era muito suspeito. Entretanto, como era uma época de dura repressão nada podia ser feito a respeito. Esse tema tomou grande proporção na grande imprensa e então a prefeita Luiza Erundina criou a Comissão Especial de Investigação das Ossadas de Perus.

A iniciativa fez surgir várias suspeitas em outros cemitérios, entretanto, a partir de 1993, trocou-se a gestão da prefeitura da cidade de São Paulo o apoio acabou, e nenhum outro informe oficial sobre as investigações foi divulgado.

Rose Nogueira lembra da importância de continuar essa luta para conseguir identificar as vítimas. “Sempre que se identifica alguém a gente reverencia”. Para ela a luta da vala de Perus não pode ser esquecida.

Clique aqui e leia resenha sobre o filme Vala Comum, documentário sobre a Vala de Perus.

Direitos Humanos na atualidade

A luta pelos Direitos Humanos ás vezes é criticada por uma parcela da população, que confunde com a defesa de bandidos. Rose contrapõe essa opinião e ressalta “nós queremos bandidos presos, mas nas cadeias e não em cemitérios. A parcela da sociedade que é criminosa tem de ser afastada, mas não torturada”. Ela complementa “a tortura é imprescritível porque ela é indelével, ela marca para a vida inteira. É impossível uma pessoa se livrar de uma opressão desse tipo. Quando uma pessoa é torturada a Humanidade inteira está sendo ofendida”.

Recentemente a Lei da Anistia voltou a ser comentada na mídia, fala-se de um pedido de revisão. A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais afirma que não houve tal pedido e que isso foi um mal entendido. Ela fala que isso não existe e o que precisa ser feito é a interpretação correta da lei e ressalta que não se pode inocentar torturadores. “Torturar presos não é um crime político, é um crime contra humanidade”.

Para Rose, falar em dois lados (torturados e os opressores) é tratar de forma igual quem não é. “Quando se fala em dois lados fica parecendo que são dois lados iguais. Um tinha o Estado todo poderoso, as armas mais modernas da época, aviões, bombas, os porões usados para a tortura até a morte. O outro tinha só pessoas, com seu corpo, cabeça e coração, por isso, morreram”.

O Grupo Tortura Nunca Mais defende que é preciso que os torturadores sejam condenados pelos crimes que cometeram. “A essa altura não precisa ir para a cadeia não, podem fazer serviços comunitários, mas precisam ser declarados culpados pelos crimes que cometeram”.

Outro ponto enfatizado pela presidente do GTNM é que o conjunto das forças armadas não pode ser condenado pelo que houve na ditadura militar. “Era apenas um grupo dentro das forças armadas que dominava o restante, também pelo medo, pela opressão. Dentro dos quartéis quem se opunha também era perseguido”.


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Rose Nogueira, uma sobrevivente do porão
da ditadura militar

Jornalista passou quase um ano sob tortura do esquadrão da morte. Seu crime? Dar abrigo a Frei Betto e a Carlos Marighella perseguidos do regime..

Che GuevaraNo ano de 1969, Rose Nogueira e seu marido foram presos em sua residência. Foi separada do seu filho recém nascido há apenas um mês, levada pelo esquadrão da morte e lá foi torturada de diversas formas, além de ser obrigada a desfilar nua. As torturas lhe proporcionaram a o fim do direito à maternidade. Na época ela ainda tinha leite que escorria e cheirava azedo. Isso incomodava os torturadores que a obrigaram a tomar uma injeção para cortar o leite gerando uma infecção que futuramente a impossibilitaria gerar um filho.

Rose ficou 50 dias presa no DOPS. Os agentes chegaram a levar seu filho lá duas vezes, pois além da tortura física também coagiam psicologicamente, usando a criança para lhe ameaçar.

Saiu da prisão no auge da ditadura, mas ainda ficou dois anos com liberdade vigiada: toda semana tinha que comparecer na auditoria militar para assinar uma ficha. Seu marido ainda continuou preso por mais um ano. Perdeu o emprego, no qual estava de licença maternidade no período da prisão, era jornalista da Folha da Manha, que lhe conferiu abandono de emprego.

Conseguiu um trabalho em uma revista especializada “Construção em São Paulo”, e não imaginava que mesmo assim eles continuavam a vigiando. “Foram 16 anos de perseguição”, lembra Rose. “Quando eu fui buscar meu dossiê na antiga SMI, hoje ABIN, lá estava. Eles fizeram meu acompanhamento”.

“Depois que a minha vida estava desgraçada, depois que me torturam, tiraram meu direito de ser mãe novamente, me privaram de ver meu filho crescer no seu primeiro ano de vida, depois de tudo isso, fui julgada e absolvida”.

Essa é uma entre tantas outras histórias que marcam o passado do Brasil, um passado vergonhoso, mas que não deve e não pode ser esquecido. A luta do GTNM é pelo direito à vida, à história e aos mortos. Pois, os familiares têm o direito de enterrar seus entes queridos.


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Saiba mais sobre o Grupo Tortura Nunca Mais
de São Paulo

Rose NogueiraO GTNM foi fundado no ano de 1977. O ponto de partida foi a morte do Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975. Logo em seguida um grupo de pessoas se posicionaram contra a tortura. Já em 1976, morreu o operário Manoel Fiel Filho também sob tortura. Esse foi o estopim para fundação do grupo. Seus fundadores foram Dom Paulo Evaristo Arns, rabino Henry Sobel, Hélio Bicudo, Maragarida Chenevoa, todos militantes dos Direitos Humanos. Nesse período, começou a campanha pela anistia total e irrestrita.

Atualmente, o grupo luta pelos direitos econômicos, sociais, melhor distribuição de renda e estrutura familiar. Tudo o que possa melhorar a sociedade de modo geral, além das lutas particulares, como é o caso de identificação de desaparecidos políticos, a eterna luta pela abertura dos arquivos e por todo e qualquer direito humano.

O Grupo tem sua sede na rua Frei Caneca, no centro da cidade de São Paulo. São duas salas cedidas pela igreja católica. Eles não pagam aluguel, mas têm outras dívidas como água, luz, telefone, internet e o salário de uma secretária.

O GTNM é mantido por doações de seus associados e não tem um patrocinador. “Cada um dá o que pode, uns dão 10 reais, outros dão 50 e alguns dão duzentos”, afirma a presidente. Cada um contribui com o que pode não tendo um valor estipulado. São cerca de 30 associados que se reúnem um sábado por mês para trocarem experiências. Os integrantes são livres para fazerem seus trabalhos, mas há uma coordenação da presidente do grupo.

A cada dois anos é realizada uma eleição para escolher o presidente e há também uma diretoria executiva. O Grupo também se articula com o CONDEP (Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana). Além disso, integra o Movimento Nacional dos Direitos Humanos e participa mensalmente de reuniões na Secretaria Especial dos Direitos Humanos da presidência da República.

O Grupo disponibiliza na sua sede uma biblioteca e um arquivo que podem ser consultados por quem tiver interesse. O objetivo é, quando houver condições, digitalizar esse acervo.
O Endereço da sede do Grupo Tortura Nunca Mais é na rua Frei Caneca, nº 986 centro- SP. Fone: (11) 3283-3082


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Bibliografia para conhecer mais sobre a luta armada

Para saber mais sobre a luta armada contra a ditadura militar, leia matéria deste site no canal Para ler. Clique aqui

 


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* Viviane Freitas é jornalista
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