Cem anos do Massacre de Santa Maria de Iquique

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Capa da Editorial Sudamericana é a que melhor reflete os últimos dias de Bolívar
Capa do site chileno comemorativo dos Cem Anos do Massacre na Escola Santa Maria de Iquique

Massacre de Santa Maria de Iquique completa cem anos de solidão

Por Alexandre Barbosa
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Cem anos de solidão do massacre

Iquique
Indústrias salitreiras: condições desumanas de trabalho.
Foto: reprodução do disco Quilapayún.

No cancioneiro do grupo chileno Quillapayún há um disco, de 1970, chamado Cantata Popular de Santa Maria de Iquique. São 18 músicas que contam a história do massacre da Escola Domingo Santa Maria, em 1907, em que 3.600 operários salitreiros chilenos foram assassinados como resposta dos “negociadores” diante da greve de uma das atividades mais importantes do país e na época já controlada por estrangeiros, principalmente ingleses.

Triste coincidência, na obra Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, há o relato de um acontecimento parecido. Na fictícia Macondo de Cem Anos de Solidão, acontece o massacre de mais de três mil trabalhadores (3.600 de acordo com a Cantata) que negociavam o fim da greve na Companhia Bananeira, também controlada por norte-americanos. No romance, o episódio foi escondido de todos. Os corpos foram jogados nos vagões de um trem e nunca mais apareceram. Ninguém acreditou no depoimento do único sobrevivente e foi como se o massacre não tivesse acontecido. Da mesma forma, o assassinato dos grevistas chilenos não consta dos principais conteúdos escolares, apesar de sua importância e relevância, e muito menos nas páginas dos periódicos brasileiros.

Em suas memórias, García Márquez diz que o episódio do massacre dos trabalhadores bananeiros foi inspirado numa história que ele ouvia quando era criança e que, da mesma forma, era só comentado pelos mais velhos, mas não havia outro registro. Mais uma vez comprovando o universalismo de Cem Anos de Solidão, a realidade latino-americana é espelhada nas páginas do livro.

O sociólogo Emir Sader aponta o massacre de Iquique como o primeiro de uma série de acontecimentos que fizeram o mundo conhecer a América Latina. Na seqüência vieram a Revolução Mexicana, a Reforma Universitária de Córdoba, a Revolução Cubana, além do reconhecimento internacional da literatura com os prêmios Nobel de Gabriela Mistral, Miguel Angel Astúrias, Pablo Neruda e Gabriel García Márquez.

Destes importantes fatos, muitos continuam “empoeirados”, esquecidos pela Academia e, sobretudo, pela mídia, abandonados nos baús históricos. Felizmente, há focos de resistência na América Latina: em 1970, o grupo Quilapayún grava a Cantata Santa Maria de Iquique, cuja primeira canção se inicia com o verso: “Señoras y Señores venimos a contar aquello que la historia no quiere recordar”. Os registros do assassinato dos trabalhadores salitreiros estão somente nas páginas da imprensa proletária, na linha do tempo construídas por partidos de esquerda (os que ainda existem) e nos textos de intelectuais e militantes ligados à América Latina.

Quilapayún
Grupo Quilapayún no ato de 21 de dezembro de 2007
Foto: Camilo Carrasco

No dia 21 de dezembro de 2007, o massacre completou 100 anos. No Chile foram organizados uma série de atos que tiveram repercussão até na Europa, menos aqui no Brasil. A indústria jornalística não deu uma só linha sobre os atos, muito menos trouxe a memória os tristes episódios. Apenas a imprensa alternativa, com destaque para a Revista Fórum, n° 57, publicou material sobre o tema. O site latinoamericano reproduz trecho da reportagem de Maurício Ayer, da Revista Fórum, mostra fotos do ato celebrado no Chile e traz a versão original da Cantata Santa Maria de Iquique.

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O que foi o massacre de 1907
(reprodução e adaptação da reportagem "Aos mortos do Iquique" de Maurício Ayer, revista Fórum, n° 57, dezembro de 2007. Clique aqui para ver o site da Fórum)

“Senhoras e senhores, viemos contar
aquilo que a história não quer recordar”


Foi em dezembro de 1907, em Iquique, cidade portuária do Norte chileno, responsável naquele tempo pelo escoamento da produção de salitre das minas da região.

As empresas salitreiras, basicamente inglesas, manejavam todo o sistema, inclusive comercial. Os trabalhadores não recebiam dinheiro, apenas fichas, que só eram aceitas em lojas, chamadas de pulperías, pertencentes aos patrões, onde eram obrigados a comprar aquilo que necessitavam. Com o tempo, o poder de compra das fichas foi baixando, mas o valor do soldo se mantinha o mesmo.

Os operários decidiram se organizar, pedir o fim do sistema das fichas e que o soldo subisse para 18 peniques (os pennies, “centavos” da libra esterlina). Além de melhores condições de segurança no trabalho.

“Falamos de uma atividade de extração de salitre em pleno deserto do Atacama, com temperaturas de 30oC durante o dia e -5oC à noite. Falamos de condições de trabalho do princípio do século XX, quer dizer, mínimas condições de segurança e de higiene, moradias precárias. E um trato econômico muito deficiente”, explica o sociólogo e historiador Bernardo Guerrero, professor na Universidade Arturo Prat de Iquique.

Como os patrões viviam na Inglaterra, não havia quem os ouvisse. Decidiram então ir a Iquique, onde estavam a aristocracia salitreira, o porto, os bancos e a intendência do governo central de Santiago. Na Cantata, é emocionante ouvir o que seria o relato de um trabalhador dizendo para sua mulher, que carrega o filho no colo, para que confie e vá com ele, pois serão ouvidos em Iquique.

“Descem caminhando ou de trem – homens, mulheres e crianças –, por 80, 90, 100 quilômetros. E praticamente invadem a cidade. São entre dez e 20 mil operários, numa cidade onde vivem 20 mil habitantes”, retrata Guerrero.

“Os senhores de Iquique tinham pavor;
era pedir demais ver tanto trabalhador.
Na gente dos pampas não se podia confiar,
podiam ser ladrões ou assassinar.
Enquanto isso as casas eram fechadas,
olhavam somente pelas janelas.
O comércio fechou também suas portas
havia que tomar cuidado com tantas bestas.
Melhor juntar todos em algum abrigo,
andando pelas ruas eram um perigo.”


O pânico tomou conta da aristocracia salitreira, e a administração local resolveu concentrar a massa em uma escola, chamada Domingo Santa María, vazia por ser período de férias. Organizou-se um comitê de greve, e líderes como José Brigg e Luis Olea foram negociar com o intendente Carlos Eastman e os salitreiros.

Eastman disse então que iria a Santiago buscar a solução para os conflitos. Era 16 de dezembro. No dia 20, retornou em um navio de guerra, com um destacamento da Marinha e o general Roberto Silva Renard. Os grevistas os receberam no porto com grande festa e aclamações, esperando pela resposta que trariam. Mas naquela noite declara-se estado de sítio, suspendendo-se os direitos civis.

No dia 21 de dezembro, a escola amanhece cercada por canhões e metralhadoras. Os operários se negam a aceitar a exigência de voltarem ao trabalho e esperam por uma resposta das autoridades. Às 15h, o genral Silva Renard ordena o bombardeio da escola e que os operários que sobrassem fossem mortos a golpes de baioneta.

Não há como precisar o número exato de assassinados pois não houve registros e os mortos foram enterrados em valas comuns. Tal qual o relato de José Arcadio Segundo, em Cem Anos de Solidão, ao dizer para sua mãe, Santa Sofía de la Piedad, sobre os mortos que ele viu nos vagões de trem "Eram mais de três mil - foi tudo o que disse José Arcadio Segundo. Agora estou certo que eram todos o que estavam na estação".

No site www.centenariosantamaria.cl é possível ver como o Chile relembrou o massacre. O trajeto dos trabalhadores das minas até o porto de Iquique foi recriado numa passeata. Às 15h e 45, na Escola houve um ato solene com o toque de sirenes que lembrou o momento do assassinato em assa. Na noite de 21 de dezembro, o grupo Quilapayún apresentou a Cantata.

Atos em Iquique Atos em Iquique
Grupo Quilapayún no ato de 21 de dezembro de 2007
Foto: Camilo Carrasco
Passeata relembrou o caminho dos trabalhadores até o porto
Foto: Camilo Carrasco
Atos em Iquique Atos em Iquique
A paisagem bela e triste dos pampas chilenos: o vermelho do chão e azul do céu
Fotos: Camilo Carrasco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Revista Fórum
A Fórum 57, dezembro de 2007: apenas a imprensa alternativa lembrou o episódio
O silêncio da indústria jornalística brasileira

Entre as modernas teorias do jornalismo está a do Newsmaking, sistematizadas por pesquisadores respeitados como Mauro Wolf, Nelson Traquina e Jorge Pedro Sousa. Nos estudos do Newsmaking diz-se que a indústria jornalística segue os mesmos padrões de qualquer outra indústria. O jornal (ou qualquer outro veículo de comunicação) tem um horário para ficar pronto, qualquer atraso implica em diminuição da audiência e conseqüente diminuição das verbas publicitárias e do lucro. Por isso, para que não haja atrasos é preciso dar aos veículos de comunicação um ritmo industrial que implica não sõ em divisão de tarefas mas, principalmente, critérios objetivos para selecionar o que será notícia.

Em qualquer veículo, em todas as editorias, há uma enorme quantidade de assuntos que podem ser noticiados. O jornalista adota critérios que são chamados de valores-notícia. Quanto mais valores-notícia há no fato, maior a chance dele ganhar as manchetes da imprensa. Os pesquisadores Galtung e Ruge qualificaram alguns valores-notícia: freqüência, amplitude do evento, clareza, significância, consonância – facilidade para inserir o novo acontecimento numa idéia velha, inesperado, continuidade, composição – equilíbrio entre as editorias e assuntos, referência a nações de elite, personalização e negatividade.

Leia também: análise da cobertura da Veja pela Teoria do Jornalismo.

Nelson Traquina adiciona a esses, outros valores-notícia como o tempo: atualidade – uso de ganchos para falar sobre determinado acontecimento e efeméride – aniversários, datas comemorativas como o os cem anos do 14 Bis, os 5 anos do 11 de setembro, dia da criança, etc. Traquina também diz que em datas próximas a feriados, a escassez de notícias e a necessidade de equilíbrio entre as editorias permitem a publicação de pautas que, normalmente, não teriam espaço.

No caso da comemoração do massacre de Iquique, pela teoria do Newsmaking ele teria, numa primeira análise os seguintes valores-notícia:
- efeméride: no dia 21 de dezembro completam 100 anos do fato. É uma data redonda, que a imprensa adora.
- equilíbrio: na semana do Natal, as notícias ficam mais raras. Há férias no futebol, na política. Aumentam as chances das notícias que, normalmente, não seriam publicadas.

É possível dizer, dependendo do pesquisador, que há significância (pelo número de mortos), proximidade (o Chile é vizinho do Brasil e o presidente Lula esteve no dia 17 de dezembro na região e os atos começaram no dia 15). No entanto, nada foi publicado pela grande imprensa

No dia 17, boa parte das notícias foram relacionadas ao acordo assinado em La Paz entre Lula, Michele Bachelet e Evo Morales para a criação do corredor interoceânico. A reportagem ganhou destaque pois houve cobertura da BBC. De 20 a 22 de dezembro, as notícias internacionais se concentraram no julgamento de Fujimori e as negociações entre as FARC e Hugo Chávez para a libertação de reféns colombianos.

Essa análise levou em consideração, principalmente, as agências internacionais de notícias, principais fornecedores de material para indústria jornalística brasileira. A ausência de correspondentes no Chile já explica, em parte, o silêncio sobre o tema de Iquique. Evidente que as outras notícias sobre a América Latina têm valores-notícia fortes. Porém, o silêncio da grande imprensa guarda uma relação maior com outros fatores, como o histórico processo das elites latino-americanas de jogarem ao esquecimento os acontecimentos relacionados às lutas populares. Este raciocínio levou à pesquisa que resultou dissertação de mestrado "A Solidão da América Latina na Grande Imprensa Brasileira".

No percurso acadêmico que levou à redação da dissertação de mestrado defendida na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo no programa de Ciências da Comunicação, o ponto que mais provocou reflexão e debate foi a descoberta de que há dois tipos de construções históricas. Vencedores e vencidos, classes dominantes e subalternas constroem duas histórias. O massacre de Iquique - entre outros - é lembrado como um fato importante pelos movimentos sociais latino-americanos, enquanto que os livros da historiografia oficial preferem dar destaques aos ambientes palacianos, aos pactos de elite que dominaram a história do continente por mais de 500 anos.

Se a história opera duas construções diferentes, de acordo com os interesses das classes envolvidas, o jornalismo é o meio em que esta prática é ainda maior. A imprensa, por excelência, seleciona e exclui fatos no processo de transformação de acontecimentos em notícia. E este processo exclui a América Latina Popular. (NAZARETH, 1995).

A dissertação de mestrado pretendeu investigar quais fatores contribuem para formar o quadro de solidão da América Latina no jornalismo brasileiro. A hipótese levantada é que não se pode procurar a resposta em apenas um campo exclusivo de ação: a solidão da América Latina na mídia não é resultado apenas da lógica do Jornalismo. Para entender os fatores que levam uma região do globo – com toda sua história, sua cultura e toda a sorte de acontecimentos (como o massacre de Iquique) – desaparecerem de jornais, rádio, TVs e sites é preciso desvendar um cenário baseado em dois eixos de análise

No Eixo 1, batizado de ambiente sócio-histórico, estão os fatores ligados à História, à americanização, ao preconceito, à influência da ideologia capitalista e à cisão do continente em duas Américas Latinas excludentes: a América Latina popular e a América Latina oficial. No Eixo 2, dedicado ao jornalismo, estão os fatores que explicam o modo de produção jornalístico: a pauta consensual que faz circular as notícias dentro de um círculo restrito do que deve ser noticiado, as relações de trabalho nas redações, a formação intelectual dos jornalistas e o caráter capitalista da mídia que é um aparelho ideológico da América Latina oficial.

A leitura da dissertação (clique aqui para ver a versão em PDF, publicada na Biblioteca de Teses da USP) permite esclarecer melhor porque só a imprensa alternativa deu voz ao centenário do massacre de Iquique.

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Conheça a Cantata Santa Maria de Iquique, por Luis Advis

Cantata Santa Maria de Iquique Pregon Relato I Canción I Relato II Canción II Relato III Interludio
Relato IV Canción III Relato V Canción letanía Canción IV Canción pregón Canción final

Pregón
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Señoras y Señores
venimos a contar
aquello que la historia
no quiere recordar.
Pasó en el Norte Grande,
fue Iquique la ciudad.
Mil novecientos siete
marcó fatalidad.
Allí al pampino pobre
mataron por matar.

Seremos los hablantes
diremos la verdad.
Verdad que es muerte amarga
de obreros del Salar.
Recuerden nuestra historia
de duelo sin perdón.
Por más que el tiempo pase
no hay nunca que olvidar.
Ahora les pedimos
que pongan atención.

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Relato I
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Si contemplan la pampa y sus rincones
verán las sequedades del silencio,
el suelo sin milagro y Oficinas vacías,
como el último desierto.

Y si observan la pampa y la imaginan
en tiempos de la Industria del Salitre
verán a la mujer y al fogón mustio,
al obrero sin cara, al niño triste.

También verán la choza mortecina,
la vela que alumbraba su carencia,
algunas calaminas por paredes
y por lecho, los sacos y la tierra.

También verán castigos humillantes,
un cepo en que fijaban al obrero
por días y por días contra el sol;
no importa si al final se iba muriendo.

La culpa del obrero, muchas veces,
era el dolor altivo que mostraba.
Rebelión impotente, ¡una insolencia!
La ley del patrón rico es ley sagrada.

También verán el pago que les daban.
Dinero no veían, sólo fichas;
una por cada día trabajado,
y aquélla era cambiada por comida.

¡Cuidado con comprar en otras partes!
De ninguna manera se podía
aunque las cosas fuesen más baratas.
Lo había prohibido la Oficina.

El poder comprador de aquella ficha
había ido bajando con el tiempo
pero el mismo jornal seguían pagando.
Ni por nada del mundo un aumento.

Si contemplan la pampa y sus rincones
verán las sequedades del silencio.
Y si observan la pampa cómo fuera
sentirán, destrozados, los lamentos.

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Canción I
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El sol en desierto grande
y la sal que nos quemaba.
El frío en las soledades,
camanchaca y noche larga.
El hambre de piedra seca
y quejidos que escuchaba.
La vida de muerte lenta
y la lágrima soltada.

Las casas desposeídas
y el obrero que esperaba
al sueño que era el olvido
sólo espina postergada.
El viento en la pampa inmensa
nunca más se terminara.
Dureza de sequedades
para siempre se quedara.

Salitre, lluvia bendita,
se volvía la malvada.
La pampa, pan de los días,
cementerio y tierra amarga.
Seguía pasando el tiempo
y seguía historia mala,
dureza de sequedades
para siempre se quedara.

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Relato II
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Se había acumulado mucho daño,
mucha pobreza, muchas injusticias;
ya no podían más y las palabras
tuvieron que pedir lo que debían.

A fines de mil novecientos siete
se gestaba la huelga en San Lorenzo
y al mismo tiempo todos escuchaban
un grito que volaba en el desierto.

De una a otra Oficina, como ráfagas,
se oían las protestas del obrero.
De una a otra Oficina, los Señores,
el rostro indiferente o el desprecio.

Qué les puede importar la rebeldía
de los desposeídos, de los parias.
Ya pronto volverán arrepentidos,
el hambre los traerá, cabeza gacha.

¿Qué hacer entonces, qué, si nadie escucha?
Hermano con hermano preguntaban.
Es justo lo pedido y es tan poco
¿tendremos que perder las esperanzas?

Así, con el amor y el sufrimiento
se fueron aunando voluntades,
en un solo lugar comprenderían,
había que bajar al puerto grande.


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Canción II
(o Vamos mujer)
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Vamos mujer,
partamos a la ciudad.
Todo será distinto,
no hay que dudar.
No hay que dudar,
confía, ya vas a ver,
porque en Iquique
todos van a entender.

Toma mujer mi manta,
te abrigará.
Ponte al niñito en brazos,
no llorará.
No llorará, confía,
va a sonreír.
Le cantarás un canto,
se va a dormir.

¿Qué es lo que pasa?,
dime, no calles más.

Largo camino tienes
que recorrer
atravesando cerros,
vamos mujer.
Vamos mujer, confía,
que hay que llegar
en la ciudad
podremos ver todo el mar.

Dicen que Iquique es grande
como un Salar,
que hay muchas casas lindas,
te gustarán.
Te gustarán, confía,
como que hay Dios,
allá en el puerto todo
va a ser mejor.

¿Qué es lo que pasa?,
dime, no calles más.

Vamos mujer,
partamos a la ciudad.
Todo será distinto,
no hay que dudar.
No hay que dudar, confía,
ya, vas a ver,
porque en Iquique
todos van a entender.


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Relato III

Del quince al veintiuno,
mes de diciembre,
se hizo el largo viaje
por las pendientes.
Veintiséis mil bajaron
o tal vez más
con silencios gastados
en el Salar.
Iban bajando ansiosos,
iban llegando
los miles de la pampa,
los postergados.
No mendigaban nada,
sólo querían
respuesta a lo pedido,
respuesta limpia.

Algunos en Iquique
los comprendieron
y se unieron a ellos,
eran los Gremios.
Y solidarizaron
los carpinteros,
los de la Maestranza,
los carreteros,
los pintores y sastres,
los jornaleros,
lancheros y albañiles,
los panaderos,
gasfiteres y abastos,
los cargadores.
Gremios de apoyo justo,
de gente pobre.

Los Señores de Iquique
tenían miedo;
era mucho pedir
ver tanto obrero.
El pampino no era
hombre cabal,
podía ser ladrón
o asesinar.
Mientras tanto las casas
eran cerradas,
miraban solamente
tras las ventanas.
El Comercio cerró
también sus puertas,
había que cuidarse
de tanta bestia.
Mejor que los juntaran
en algún sitio,
si andaban por las calles
era un peligro.

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Interludio cantado

Se han unido con nosotros
compañeros de esperanza
y los otros, los más ricos,
no nos quieren dar la cara.

Hasta Iquique nos hemos venido
pero Iquique nos ve como extraños.
Nos comprenden algunos amigos
y los otros nos quitan la mano.

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Relato IV

El sitio al que los llevaban
era una escuela vacía
y la escuela se llamaba
Santa María.

Dejaron a los obreros,
los dejaron con sonrisas.
Que esperaran les dijeron
sólo unos días.

Los hombres se confiaron,
no les faltaba paciencia
ya que habían esperado
la vida entera.

Siete días esperaron,
pero qué infierno se vuelven
cuando el pan se está jugando
con la muerte.

Obrero siempre es peligro.
Precaverse es necesario.
Así el Estado de Sitio
fue declarado.

El aire trajo un anuncio,
se oía tambor ausente.
Era el día veintiuno
de diciembre.

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Canción III

Soy obrero pampino y soy
tan reviejo como el que más
y comienza a cantar mi voz
con temores de algo fatal.

Lo que siento en esta ocasión,
lo tendré que comunicar,
algo triste va a suceder,
algo horrible nos pasará.

El desierto me ha sido infiel,
sólo tierra cascada y sal,
piedra amarga de mi dolor,
roca triste de sequedad.

Ya no siento más que mudez
y agonías de soledad
sólo ruinas de ingratitud
y recuerdos que hacen llorar.

Que en la vida no hay que temer
lo he aprendido ya con la edad,
pero adentro siento un clamor
y que ahora me hace temblar.

Es la muerte que surgirá
galopando en la oscuridad.
Por el mar aparecerá,
ya soy viejo y sé que vendrá.

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Relato V

Nadie diga palabra
que llegará
un noble militar,
un General.
Él sabrá cómo hablarles,
con el cuidado
que trata el caballero
a sus lacayos.
El General ya llega
con mucho boato
y muy bien precavido
con sus soldados.
Las ametralladoras
están dispuestas
y estratégicamente
rodean la escuela.

Desde un balcón les habla
con dignidad.
Esto es lo que les dice
el General
«Que no sirve de nada
tanta comedia.
Que dejen de inventar
tanta miseria.
Que no entienden deberes
son ignorantes.
Que perturban el orden,
que son maleantes.
Que están contra el país,
que son traidores.
Que roban a la patria,
que son ladrones.
Que han violado a mujeres,
que son indignos.
Que han matado a soldados,
son asesinos.
Que es mejor que se vayan
sin protestar
Que aunque pidan y pidan
nada obtendrán.
Vayan saliendo entonces
de ese lugar,
que si no acatan órdenes
lo sentirán».

Desde la escuela, «El Rucio»,
obrero ardiente,
responde sin vacilar
con voz valiente,
«Usted, señor General
no nos entiende.
Seguiremos esperando,
así nos cueste.
Ya no somos animales,
ya no rebaños,
levantaremos la mano,
el puño en alto.
Vamos a dar nuevas fuerzas
con nuestro ejemplo
Y el futuro lo sabrá,
se lo prometo.
Y si quiere amenazar
aquí estoy yo.
Dispárele a este obrero
al corazón».

El General que lo escucha
no ha vacilado,
con rabia y gesto altanero
le ha disparado,
y el primer disparo es orden
para matanza
y así comienza el infierno
con las descargas.

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Canción letanía

Murieron tres mil seiscientos
uno tras otro.
Tres mil seiscientos
mataron uno tras otro.

La escuela Santa María
vio sangre obrera.
La sangre que conocía
sólo miseria.

Serían tres mil seiscientos
ensordecidos.
Y fueron tres mil seiscientos
enmudecidos.

La escuela Santa María
fue el exterminio
de vida que se moría,
sólo alarido.

Tres mil seiscientas miradas
que se apagaron.
Tres mil seiscientos obreros
asesinados.

Un niño juega en la escuela
Santa María.
Si juega a buscar tesoros
¿qué encontraría?

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Canción IV
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A los hombres de la pampa
que quisieron protestar
los mataron como perros
porque había que matar.

No hay que ser pobre, amigo,
es peligroso.
No hay ni que hablar, amigo,
es peligroso.

Las mujeres de la Pampa
se pusieron a llorar
y también las matarían
porque había que matar.

No hay que ser pobre, amiga,
es peligroso.
No hay que llorar, amiga,
es peligroso.

Y a los niños de la Pampa
que miraban, nada más,
también a ellos los mataron
porque había que matar.

No hay que ser pobre, hijito,
es peligroso.
No hay que nacer, hijito,
es peligroso.

¿Dónde están los asesinos
que mataron por matar?
Lo juramos por la tierra,
los tendremos que encontrar.
Lo juramos por la vida,
lo tendremos que encontrar.
Lo juramos por la muerte,
los tendremos que encontrar.

Lo juramos compañeros,
ese día llegará.

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Canción pregón
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Señoras y señores,
aquí termina
las historia de la escuela
Santa María.
Y ahora con respeto
les pediría
que escuchen la canción
de despedida.

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Canción final
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Ustedes que ya escucharon
la historia que se contó
no sigan allí sentados
pensando que ya pasó.
No basta sólo el recuerdo,
el canto no bastará.
No basta sólo el lamento,
miremos la realidad.

Quizás mañana o pasado
o bien, en un tiempo más,
la historia que han escuchado
de nuevo sucederá.
Es Chile un país tan largo,
mil cosas pueden pasar
si es que no nos preparamos
resueltos para luchar.
Tenemos razones puras,
tenemos por qué pelear.
Tenemos las manos duras,
tenemos con qué ganar.

Unámonos como hermanos
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos,
jamás lo podrán lograr.
La tierra será de todos
también será nuestro el mar.
Justicia habrá para todos
y habrá también libertad.
Luchemos por los derechos
que todos deben tener.
Luchemos por lo que es nuestro,
de nadie más ha de ser.

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Cantata Santa Maria de Iquique

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