Professor Gusmão e a Aelam

 

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Conheça a trajetória de um educador que é
uma das imagens da história de resistência no Brasil


Por Viviane Freitas


La ResentidaPresidente da AELAM (Associação de Educadores Latino-Americanos), José Marinho de Gusmão Pinto, 76 anos, tem uma história de vida que se confunde com as lutas de resistência no Brasil nas últimas décadas. Nascido no nordeste, estudou na União Soviética, foi preso pela Ditadura Militar e hoje se dedica à arte de ensinar e aprender, o que o transformou em um professor-educador apaixonado. “Sou um partidário da revolução socialista, defendo a justiça e a solidariedade como prática social”, diz.

“Acho que comecei a pensar seriamente sobre o mundo depois que conheci os católicos e os comunistas”, relata Gusmão ao lembrar que esses assuntos não eram debatidos na escola ou em casa. “Eu achava isso muito ruim. Um dia descobri que o pai de um amigo era comunista. Era uma pessoa muito simpática. Um dia esse senhor foi preso e a polícia bateu nele. Eu logo já fiquei do lado do fraco. Como podem fazer isso com o cara?”

O Educador passou sua infância com essas questões, começou a trabalhar muito cedo, com 12 anos já trabalhava no comércio de sua cidade e passou por vários empregos. Aos 22 anos veio para São Paulo. Chegou na cidade num dia chuvoso, com a roupa de linho encharcada e com a intenção de estudar. Nesse período começou a entender sobre política “Aí comecei a conhecer o mundo e fui formando uma concepção de que as pessoas têm que cuidar das pessoas”.

Chegou a morar um tempo no Rio de Janeiro e logo voltou para São Paulo. Nessa época as coisas eram difíceis e ele sempre estudava com a intenção de prestar um vestibular para algum curso que lidasse com a vida, Biologia ou Medicina.

Começou a cogitar uma bolsa de estudo, que naquele tempo se restringiam às estrangeiras. Começou a procurar em consulados e a oportunidade veio um dia por um anúncio no jornal que pedia para entrar em contato com uma entidade chamada “União Cultural Brasil - URSS”.

A partir daquele momento Gusmão conheceu diversos comunistas, fez sua inscrição para uma bolsa de estudos e recebeu uma resposta negativa, mas ele não desanimou. Passou a frequentar a entidade e fez amizades. Nesse período conheceu figuras como João Beline Burza, Homero Marques e Solano Trindade, este o fundador do Teatro Popular Brasileiro.

GusmãoDepois de um ano a oportunidade chegou, ganhou uma bolsa de estudo para estudar Biociência na então União Soviética. Ficou 3 anos estudando no exterior e teve contatos com muitas pessoas de outros países e de muitas culturas diferentes. “Conheci figuras ilustres como Agostino Neto e Fidel Castro. Minha convivência com jovens de outros países ajudou-me muito”, lembra Gusmão.

Ele recorda que sempre procurava ler os jornais de vários países para entender a problemática política internacional e saber o que estava se passando no mundo. Ele criticava muitas coisas que observava na União Soviética. Isto gerava a idéia , para diversas pessoas, de que ele tinha uma posição anti-soviética. “Eu não concordava com tudo, uma coisa que me lembro que achava muito ruim , eram as visitas ao túmulo do Lênin, na praça Vermelha. Aquilo me parecia um ritual religioso”.

Gusmão adoeceu e pediu para voltar para seu país. O reitor da Universidade entendeu sua situação e o liberou. Chegou ao Brasil no final de 1964 e encontrou aqui uma ditadura militar instalada. Não tinha emprego e lhe restaram só alguns amigos, pois muitos ele perdeu. Alguns porque achavam que ele era comunista e outros porque achavam que ele era contra os soviéticos. Ele tinha uma posição muito clara: a União Soviética tinha muitas coisas boas, mas não era um paraíso. Muitos dos seus amigos não entendiam as coisas como ele.

Nos anos de luta contra a Ditadura Militar, Gusmão tentava ajudar a quem ele podia, fazia reuniões, cedia sua casa a quem necessitava entre outras ações.

Em 1971, o professor Gusmão foi preso pelo DOI-CODI, na escola em que lecionava. O motivo? Queriam que ele falasse quem era e onde estava o Castro. O Castro que Gusmão conhecia não era o mesmo que a ditadura procurava, mas eles não sabiam disso e nem o professor. Mesmo assim, Gusmão negava seu envolvimento com ele e falava que o conhecia apenas de vista, na faculdade. “Eu não sabia por onde o Castro andava, mas mesmo que eu soubesse não diria”.

GusmãoEle lembra da coragem do diretor da sua escola na época, o professor Armindo, que não permitiu que os agentes o prendessem em sala de aula. “A autoridade nessa escola sou eu”, foi a frase marcante do diretor Armindo, e foi chamá-lo na sala de aula, num ato de zelo pelo professor e seus alunos.

Gusmão passou muitos meses preso e sofrendo torturas, até que descobriram por onde o Castro andava, o prenderam e torturam os dois, mas quando os torturadores perceberam não era esse Castro que estavam procurando, perderam o interesse por Gusmão, que foi encaminhado para o DOPS, depois para o Presídio Tiradentes e para julgamento na Auditoria de Guerra, onde foi absolvido.

Foi preso uma segunda vez em 1972 por cerca de três meses. Em seguida foi libertado. Ele lembra de como foi no dia da sua liberdade. Mandaram-lhe ir embora, ir para casa. Ele saiu, mas com medo que o matassem e alegassem que estava tentando fugir, atravessou a rua e foi pedir dinheiro emprestado ao dono de uma padaria para poder voltar para casa.

As lembranças da ditadura não são nada fáceis para o educador que dedica sua vida por uma educação de boa qualidade e por uma sociedade melhor. Ele fica revoltado com uma imprensa que tem a coragem de dizer que a ditadura foi uma ditabranda. “ De branda ela não teve nada. Os Frias falam isso porque eles sempre compactuaram com ela”, critica o professor.

Depois de 1964, Gusmão reestruturou sua vida, arrumou um emprego, passou no vestibular, casou-se e formou-se em Geografia na USP. “Com o passar do tempo tornei-me mais professor-educador do que geógrafo. Descobri que ensinar e aprender é muito importante e todo mundo deve dar valor ao que sabe. Se todos os professores tivessem a consciência de que o pouco ou muito que sabem é algo importantíssimo para todos nós, eles teriam um melhor papel na sociedade.”

AELAM luta pela educação e cultura latino-americanas

GusmãoA Associação de Educadores Latino-Americanos teve origem nas iniciativas de um grupo de professores-educadores comprometidos com a educação e a cultura na América Latina. A partir de 1996, esse grupo tentou organizar, na Baixada Santista, um “núcleo local” da AELAC (Associação de Educadores da América Latina e do Caribe), realizando quatro encontros de educadores na região (1996, 1997, 1998 e 1999) e elegendo uma diretoria provisória em 1998.

O grupo desejava que o “núcleo” fosse um instrumento de luta e trabalho em prol da educação e da cultura em nosso país, mas o estatuto da AELAC, no Brasil (1991), não permitia a existência de “núcleos locais”.

Somente em agosto de 2000 foi possível abandonar a idéia de “núcleo local”, e organizar uma entidade, com pessoa jurídica, que atendesse às exigências da legislação brasileira e às necessidades do grupo naquele momento.

No dia 12 de agosto de 2000 foi fundada a Associação de Educadores Latino-Americanos, como sociedade civil sem fins lucrativos, para viabilizar os projetos do grupo iniciados em 1996 e, especialmente, dar prosseguimento ao Programa de Formação Permanente de Educadores criado em 1998. A nova entidade manteve os objetivos e os princípios filosóficos, políticos e pedagógicos da AELAC.

A associação não tem uma sede física, mas isso não a impede de realizar seus projetos. Hoje, mantém uma parceria com a UNISANTOS (Universidade Católica de Santos), que permite usar as dependências da universidade e estar em contato com professores e alunos de licenciaturas, principalmente.

Os associados pagam uma anuidade de R$20,00 que só dá para saldar as tarifas bancárias da conta corrente da associação e outras pequenas despesas. “Quando o associado não tem dinheiro, ele não paga”. A AELAM não tem o objetivo arrecadar dinheiro com suas atividades, portanto, não cobra nada de quem participa de seus cursos e oficinas. Gusmão fala, com orgulho, que são muitos os educadores que ministram aulas, para AELAM, e não recebem nada, o fazem por amor ao seu trabalho e solidariedade aos demais cidadãos.

O que é ser um educador para a AELAM ? “Nós consideramos educadores todos os cidadãos que têm compromisso e carinho com a educação da população, não precisa ser professor, até porque tem muitos professores que não são educadores”, diz Gusmão.

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