Paulo Freire deixou a lição de que para aprender e ensinar não são necessários apenas livros. Objetos do cotidiano, conversas com mais velhos e até um passeio são muito úteis para aulas, basta saber explorar.
Aprender História do Brasil pode ser mais divertido quando se explora o prédio de cinco andares do DOPS restaurado para abrir um complexo cultural equipado com auditório, laboratórios de restauro, setor de documentação, área de eventos e exposições, restaurante e loja.
Comece pela arquitetura e descubra que não só este, mas a maioria dos prédios vizinhos, da Pinacoteca ao Centro Paula Souza, foram projetados pelo arquiteto Ramos de Azevedo. Todos seguem o mesmo estilo e passam a sensação de imponência, sobriedade, resistência e robustez, a mesma imagem que São Paulo começava a passar para o país. Os edifícios são datados do final do século XIX e início do XX, época que marca o início do crescimento paulista. Para a sorte dos visitantes, foram preservadas as estruturas metálicas – idéia revolucionária para a época - do projeto de Ramos de Azevedo.
Visite o Memorial da Liberdade, localizado em um dos cantos da parte térrea do prédio. Lá estão as celas restauradas. Pintadas com tinta cinza e iluminadas com spots, apenas as portas de madeira com os grossos ferrolhos estão com a aparência original, mas colunas de pedra também chamam a atenção.
A explicação para as colunas está na origem do prédio. Quando foi projetado, serviria como armazém e administração para a Estrada de Ferro Sorocabana, que depois seria comprada pela São Paulo Railway Company. Aquelas estruturas são memórias de quando o transporte ferroviário era o sistema circulatório da riqueza do país. A Estação Júlio Prestes, vizinha ao DOPS, que hoje abriga a Sala São Paulo, utilizada para concertos, e a Secretaria da Cultura ainda é utilizada como parada final de trens hoje um transporte suburbano.
Passado
As celas estão alteradas. O espaço para o banho de sol continua no mesmo lugar, cercado de grades. Tudo está limpo e iluminado. Muito diferente da sensação de angústia e sofrimento que o mesmo lugar passava antes da reforma quando foi reaberto ao público durante a exibição da montagem Lembrar é Resistir que retratava um dia na vida dos prisioneiros políticos do DOPS.
Passagem da História do Brasil dificilmente estudada, é também a mais obscura, mas pode ser sentida nas paredes. A tinta grafite, os mezaninos, o chão de madeira clara e as mudanças na estrutura interna não conseguiram esconder os fantasmas das torturas, mortes e dores que aconteceram naquelas salas. Quem um dia estudou ou tomou conhecimento de alguma sessão de tortura ou das prisões feitas no DOPS não passa pelo Memorial da Liberdade sem sentir um arrepio e torcer para que nunca mais se repita esse passado tão nefasto do país.
E quem não conhece nada pode recorrer a um terminal de consulta multimídia que oferece depoimentos em vídeo dos ex-presos políticos, prontuários policiais e documentos. Tudo digitalizado, pois o acervo do DOPS está no Arquivo do Estado de São Paulo, na rua Voluntários da Pátria. Nos outros andares diversos espaços também farão alguma referência ao tema. Desde formas mais interpretativas, como quadros e instalações, até exposições do acervo e de objetos.
Ao visitar as exposições e consultar os arquivos do Museu será possível entender um pouco mais o que levava tanta gente às ruas nos anos 60 para pedir algo mais do que escola pública ou liberdade de expressão.
Museu do Imaginário do Povo Brasileiro
De terça a domingo, das 10h às 17h.
Largo General Osório, 66, Campos Elíseos, entre as Estações Luz e Júlio Prestes.