“Colocado nesse transe histórico, pagarei com a vida a lealdade do povo, e digo-lhes que tenho certeza que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser apagada definitivamente.”
As proféticas palavras acima são do ex-presidente chileno Salvador Allende, transmitidas por uma rádio, um pouco antes do líder socialista morrer em defesa do que acreditava. Clique aqui e leia o discurso na íntegra.
A semente continua germinando. O centenário do nascimento do estadista chileno Salvador Allende será lembrado com ato solene, no dia 26 de junho, às 19h, na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.
A homenagem faz parte de uma série de eventos que serão realizados em todo o mundo em memória do líder político. A comunidade chilena apoiada pela UNECHILE – entidade que aglutina as organizações culturais e associativas dos chilenos em São Paulo, constituiu um comitê para fazer desta data algo relevante. Participam do comitê a Associação Brasileiro Chilena de Amizade e a Associação Salvador Allende de SP, além de membros independentes da comunidade.
Em 11 de setembro de 1973, com ostensivo apoio dos Estados Unidos, as Forças Armadas, chefiadas pelo general Augusto Pinochet, deram um sangrento golpe de Estado que derrubou o governo da UP. Allende morreu quando as forças armadas rebeladas contra o governo constitucional atacaram o Palácio de La Moneda. Há duas versões sobre a morte do estadista: a primeira é que ele se suicida no Palácio, cercado por tropas do exército, com a arma que lhe fora dada por Fidel Castro; a outra é que foi assassinado pelas tropas invasoras. Salvador Allende teve um funeral com honras militares em 1990.
Confira aqui o último discurso do líder chileno. A transmissão foi realizada pela Rádio Magallanes, às nove horas e dez minutos da manhã do dia do golpe. A gravação tem como pano de fundo os ruídos dos bombardeios, a correria e os gritos na trincheira de resistência do Palácio de La Moneda. A voz de Allende, no entanto, é serena e firme, quase atemporal. O presidente tinha consciência de que suas palavras ecoariam na posteridade.
Um relatório oficial concluiu que 3.197 pessoas foram assassinadas por razões políticas durante a ditadura de Pinochet, que durou de 1973 a 1989. Mais de dez mil pessoas foram presas, torturadas e exiladas no período ditatorial.
Para outras informações, visite o site www.cetenarioallende.org
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Saiba mais sobre Salvador Allende
Para entender melhor sobre o período, além do livro Cuba, Chile e Nicarágua, de Emir Sader, recomenda-se a leitura de Canção Inacacada, de Joan Jara, viúva de Victor Jara. Há também o excelente filme Machuca, além do brilhante e imperdível documentário Batalha do Chile, que retrata muito bem a divisão entre elite e classes populares no Chile, e as várias tenativas de diálogo que Allende tentou estabelecer.
Salvador Allende foi o primeiro marxista assumido eleito democraticamente presidente da República na América Latina. Médico de formação, deixou de lado o ofício para dedicar-se somente a política.
Em 1933, colaborou com a fundação do Partido Socialista Chileno. Iniciou a carreira política como deputado em 1937 e ocupou o Ministério da Saúde de 1939 a 1942. Foi senador em 1952, no mesmo ano em que concorreu pela primeira vez à Presidência da República. Em 1964 é novamente derrotado. É somente em 1970 que, disputando como candidato da coalizão de esquerda Unidade Popular (UP), é eleito presidente da República do Chile, com 36,2% dos votos. Em 1972, recebeu o Prêmio Lênin da Paz.
Salvador Allende representou um tipo particular de revolucionário: depositava suas esperanças nas urnas, acreditava na possibilidade de instaurar o socialismo de maneira democrática e sem derrubar o sistema político vigente.
Sua política, que ficou conhecida como “via chilena para o socialismo”, tinha como objetivo realizar uma transição pacífica para uma sociedade mais justa e igualitária. Allende tentou socializar a economia chilena, com base num projeto de reforma agrária e nacionalização de indústrias estratégicas. Transferiu para o controle do governo os bancos, as minas de cobre e algumas grandes empresas. Teve que enfrentar a forte oposição dos democrata-cristãos de direita e a antipatia do efetivo militar chileno, além das pressões políticas norte-americanas, que acabaram aprofundando sensivelmente os problemas da frágil economia chilena.
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