Viva o 31 de outubro, Dia do Saci
Por José de Almeida Amaral*
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| Ilustração original em preto e branco de Manoel Victor Filho |
O Brasil foi amalgamado pelo contato entre três culturas: índia, branca e negra. O elemento luso fundiu-se aos outros povos no Novo Mundo de forma pouco pacífica, envolvendo escravidão, imposição religiosa, sangue e suor derramados. Como, no todo, o restante da América Latina foi formada com a colonização espanhola pelo continente. Nascemos assim e, aos trancos e barrancos, cá chegamos. Então, sob o angulo da comunicação, como disse a professora da UnB – Universidade de Brasília, Lucie Didio, a língua portuguesa saiu vitoriosa sobre as nativas aqui existentes antes do Descobrimento.
Em 1757 o Marquês do Pombal proibiu o ensino e difusão da ‘língua geral’ na colônia, ou seja, aquela miscigenada entre tupi e português. Sabia o governante a importância estratégica da preservação da língua como elemento de identidade e soberania nacional. Desta forma, impôs-se. Tornou-se hegemônica. Revelou como a cultura pode ser um instrumento poderoso de dominação. Sobre isso, o saudoso antropólogo Darcy Ribeiro, autor de “O Povo Brasileiro”, chamou de ‘Alienação Cultural’ aquela que “consiste na introjeção espontânea ou induzida em um povo da consciência e da ideologia de outrem, correspondente a uma realidade que lhe é estranha e a interesses opostos aos seus”.
Pois bem, durante o século XX os EUA como parte de sua hegemonia, buscaram impor sua cultura, o “american way of life”, para o mundo e, em especial, à América Latina. Tratou por isso de desenvolver uma política de ‘boa vizinhança’ com seus próximos. Durante o período da II Grande Guerra, para se ter uma idéia, fomos presenteados pelos estúdios Disney com a criação de um ‘personagem brasileiro’, o Zé Carioca. Qual a imagem? Simpático, vagabundo e malandro. E nós, para lá, mandamos a talentosa Carmen Miranda fantasiada de baiana, que deixou os executivos do Uncle Sam de queixo caído com toda sua exótica figura e potencial para o show business - do qual usou e foi intensamente explorada, diga-se, nos anos seguintes. Fomos então entupidos de produtos ‘made in USA’ e acabamos por lutar contra o Eixo ao lado dos EUA, apesar do Estado Novo de Vargas ter fortes características fascistas. Roosevelt nos ‘presenteou’ com verbas para a construção da CSN, entre outros argumentos convincentes.
Depois, desde os anos 50, com a entrada cada vez mais intensa do capital multinacional no processo de industrialização brasileira, os aspectos da cultura estadunidense foram intensificando-se por aqui. Rock’n’roll, hot-dog, Coca-cola, blue jeans, astros cinematográficos hollywoodianos etc. A veneração pelos aspectos de sua civilização difundiram-se. É algo inquestionável. Nos meios financeiro e de administração de empresas há um bombardeio de jargões em seu idioma que fazem parte da rotina diária: ‘cases’, ‘brainstorm’, ‘overnight’, ‘just-in-time’, ‘delivery”, ‘cash’, ‘coach, ‘off-shore’, ‘stand by’, ‘sale’, ‘free shop’ etc. Para que isso? Faltam palavras em nosso vocabulário sobre tais conceitos ou definições? Pelo contrário, a nossa língua é riquíssima. Leiam Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Guimarães Rosa entre outros mestres que estão para provar esse vasto vernáculo. Esta substituição apenas se dá porque supostamente empresta uma impressão de estarmos mais próximos de uma experiência superior. É altamente ideológico.
Então, e o esperanto? Este é o idioma internacional. Para esta globalização, porque não o transformarmos na língua planetária, o disseminarmos na informática, nos negócios? Qual o que! A rede mundial potencializou ainda mais o uso do inglês. E vão-se ‘deletando’ nossas expressões com os ‘downloads’ difundidos. Nossa cultura vai sendo submetida. Valores que se projetam e levam à subserviência, à apatia, ao não confronto. Causa resignação e induz à passividade política aos interesses econômicos dominantes. E atingem nossa juventude, mal amparada pela educação sem qualidade crítica. Se a CNN, a CBS ou a ABC não confirmaram, não é verdade. Eles geram as notícias pelo mundo. Eles é que contam a história. Eles é que fazem a história. Estamos muito mais próximos dos astros da NBA, dos brothers do hip-hop ou da última mania em New York do que da vida dos nossos irmãos da América Latina. Ou dos demais povos de língua portuguesa. Que sabemos deles?
Os antropólogos de linha funcionalista ainda na alvorada do séc. XX confrontaram as visões eurocentricas, evolucionistas, preconceituosas, racistas, existentes no colonialismo imperialista e no positivismo do séc. XIX mostrando que não há culturas melhores, somente distintas, diferentes entre si. Mesmo assim, muita gente os acha perfeitos, modelares. Lojas, prédios, produtos, coisas e mais coisas são batizadas com nomes em inglês para dar um aspecto presumidamente mais sofisticado ao seu empreendimento. Time is money. Há também em francês e italiano, outras referências chiques, todavia sem a mesma influência dos EUA a quem, aliás, chamam de ‘os americanos’, sugerindo algo como se só eles fossem e nós não pertencentes a este pedaço de terra. Por acaso somos de onde? Da África? Da Ásia? Se minha pátria é minha língua, estamos fritos. Como diria a espantada top model brasileira: Oh, my god...
Anoitece em São Paulo, bairro da Barra Funda, plena quinta-feira. Ao meu lado chega um auto com duas pessoas dentro. Logo após outro e mais outro. Deles saem figuras que pareciam chegar do Texas - antiga região mexicana tomada em guerra pelos EUA. Iam à casa noturna bem próxima dali, para curtir um show country. Rapazes estão de camisas quadriculadas, calças de brim, botinhas de bico fino e chapéu de cowboy. As moças, bem maquiadas, idem. Com tudo o que tem direito: fivelas nos cintos, botões prateados nos calçados, tiras penduradas nas mangas das jaquetas. É o pessoal do ‘sertanejo’ brasileiro. O povo que tem na Festa do Peão da cidade de Barretos a sua capital. Modernos, eliminaram Mazzaropi e assumiram John Wayne de berrante em punho. Emudeceram Inezita Barroso e idolatram Dolly Parton. Let’s go, crazy people, que mal sabe falar o português.
Nesta semana as escolas preparam-se para o Halloween, isto é, o Dia das Bruxas. Enquanto eu estava no primário não havia nada disso. Lembro que acontecia o Dia de Todos os Santos e, depois, Finados, quando é feriado. Só havia música lenta nas rádios. Pois é. O fato é que esse evento de ingleses e, depois, de norte-americanos e canadenses que se dá em 31 de Outubro vem tomando espaço e sendo incorporado ao calendário das grandes metrópoles nacionais. Ao menos uma semana antes já há propaganda nos jornais para noitadas temáticas. Por que não exploramos o dia nacional do Folclore com a mesma intensidade? Nós também temos nossos entes, nossas figuras míticas, lendárias, tão simpáticas: o Curupira, o Caipora, a Mula-sem-cabeça entre outros tantos. Não é preciso importar e pagar royalties pelos capetas alienígenas. Temos os nossos próprios. É uma esquizofrenia. Para todo canto que se olha, há invasão cultural. Definitivamente, não é uma troca equilibrada com o estrangeiro, especialmente o governado pela White House.
Como diz a Ata de Fundação e a Carta de Princípios da SOSACI - Sociedade dos Observadores de Saci: “A cultura popular é um elemento essencial à identidade de um povo. As tentativas insidiosas de apagar do imaginário do povo brasileiro sua cultura, seus mitos, suas lendas, representam a tentativa de destruir a identidade do nosso país. [...] O Saci não se reivindica como símbolo único e incontestável da cultura popular brasileira. O Saci trabalha pela união e pelo entendimento das várias iniciativas culturais que devolvam ao nosso povo a valorização de sua identidade cultural. O Saci não dissimula suas opiniões e seus objetivos e proclama, abertamente, que estes só podem ser alcançados por um amplo movimento de resistência cultural, denunciando os malefícios da indústria cultural imperialista. Que ela trema à idéia de uma resistência cultural popular. Nesta, o Saci nada tem a perder a não ser seus grilhões. E tem um mundo a ganhar.”
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Capa do livro de Monteiro Lobato |
P.S.: aproveitem para ler nestes dias O Saci, de Monteiro Lobato. São Paulo: Editora Brasiliense S.A. Ilustrações originais em preto e branco de Manoel Victor Filho.
30/10/07