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De Malinche a La Llorona: o mito da traição

Por Denise Aparecida do Nascimento
Mestre em Letras: Teoria Literária e Crítica da Cultura (UFSJ); Especialista em Estudos Literários (UFJF). E-mail: deninasc@terra.com.br

MalinchePersonagem complexa e controvertida, Malinche é adorada por uns e odiada por outros. Tem sido representada de várias maneiras desde uma visão histórica, propriamente dita, passando pelo mitológico chegando à feminista.

Como figura histórica é admirada por sua inteligência e capacidade de comunicação, por outro lado é também historicamente acusada de trair sua raça ao prestar serviços como tradutora entre o espanhol Hérnan Cortés e o povo azteca. Octávio Paz em Os filhos da Malinche (1984) descreve a conquista do México como uma violação e Malinche, sendo considerada a responsável por essa violação, ganhou o título de la chingada, perpetuando sua imagem de mulher traidora.

Malintzin ou Malinalli nasceu em família nobre azteca foi oferecida como escrava pela própria família a comerciantes maias logo após a morte de seu pai e o novo casamento da mãe. Como era muito inteligente logo aprendeu a falar seu idioma. Quando Hernan Cortés chegou ao México ela foi novamente oferecida como escrava a ele. Em pouco tempo os espanhóis descobriram que aquela índia sabia falar tanto maia quanto o nahuatl (sua língua nativa) o que facilitava o diálogo com os índios.

Diante de seus préstimos Malintzin foi convertida ao Cristianismo e passou a ser chamada por Marina ou Doña Marina, rapidamente aprendeu o castelhano e tornou-se tradutora, intérprete e amante de Hernan Cortés com quem teve dois filhos.

No desfecho desse romance está o ato máximo que condena ou absolve a figura daquela que é considerada a Eva Latina. Após conquistar e dominar os povos maia e asteca, sempre com a ajuda de Malintzin, Cortés é assediado pelo rei da Espanha a voltar para casa; como se recusava em aceitar tal pedido a rainha manda uma bela dama espanhola para seduzi-lo. Caindo na armadilha, Cortés decide voltar para a Espanha com os dois filhos, mas sem Malintzin.

Desesperada com a perda do amante e a eminente perda dos filhos, na véspera da partida de Cortés, Malintzin tenta fugir com seus filhos; perseguida pelos soldados de Cortés a índia, num gesto de extrema aflição, ela mata seus filhos a apunhaladas e lança seus corpos nas águas do lago Texcoco, se joga nas águas em seguida na intenção de se matar. Resgatada pelos soldados, Malintzin, se arrepende. Condenada pelo povo por sua traição, e sem conseguir o perdão de Cortés, Malintzin passou o resto de seus dias chorando a morte de seus filhos, até
que finalmente morreu por volta do ano de 1531.

La lloronaAnos após sua morte ela é vista e ouvida chorando perto do lago chamando por suas crianças: “Oh, hijos mios”. Recebeu o nome de “a mulher que chora”, ou“La Llorona”1. Na Espanha, Cortés era considerado um herói conquistador; no México, Malintzin tornou-se sinônimo de traição e vergonha.

Clique aqui e veja o artigo Llorona: mito e contemporaneidade, versão do artigo publicado nos anais da ABRALIC.

Em uma visão feminista, muitas escritoras, principalmente as mexicanas e chicanas, destinam à figura de Malinche uma atenção especial. Essas autoras se preocupam em tirar da índia a imagem de mulher egoísta que, para obter sucesso, foi capaz de trair os seus; as autoras tentam mostrar que Malinche foi uma mulher que sofreu ao ser recusada pela família, sofreu por sua escravidão e pela escravidão do povo mexicano. Entre as teóricas feministas mais engajadas na revisão da história de Malinche, destacamos a tejana Glória Anzaldúa.

Mais de duas décadas já se passaram desde o lançamento do livro Bordelands/ La frontera: the new mestiza (1987) e a autora continua sendo referência a todos aqueles que se interessam pela escrita das margens, aqui em especial de autoria feminina. Através de sua escrita Anzaldúa promove uma desconstrução das referências masculinas, além de enfatizar todo tipo de despossessão do povo mexicano marginalizado.

Anzaldúa denomina sua escrita de autohistória e a apresenta de forma tortuosa, como um ciclo convoluto ou a “serpentine cycle”. Sua narrativa repensa vários ícones indígenas, além de rituais e outros símbolos de sua tradição perdidos com as dominações hispânica e norte-americana. Oferece ainda uma outra leitura sobre as deidades femininas em especial a imagem da deusa mãe azteca: Coatlicue, procurando através dessa, expor a tradição do domínio patriarcal naquela cultura.

É por estar sempre consciente de que as leis e regras que governa(ra)m sua vida foram/são ordens criadas pelos homens podendo, portanto, ser desfeitas com a lógica feminina, que Anzaldúa toma a figura de Malitzin e contesta seu lugar na mitologia mexicana enquanto mito representativo da mulher traidora de seu povo, amante de Cortés e mãe da mestiçagem.

O trabalho de Anzaldúa abriu caminhos para que as mulheres de “cor” (latinas, afro-descendentes entre outras etnias) saíssem da obscuridade acadêmica; e trouxesse à tona, a partir de seu lugar de escritora marginalizada, a possibilidade de se discutir a presença da mulher descentralizada no cânone ocupado primordialmente por indivíduos brancos, anglo-saxões, protestantes, heterossexuais e de classe média. Ao distinguir os trabalhos oriundos das margens daqueles “centralizados” a teórica rompe com a noção de diferença que eram percebidos apenas entre os gêneros (masculino/feminino); a partir daí aponta as subordinações que estão além das diferenças de gênero, ou seja, diferenças sociais, raciais e étnicas, por exemplo, passam a ser percebidas dentro de um grupo feminismo.

Anzaldúa desempenhou um papel importante na consolidação do movimento feminista de inclusão nos anos oitenta, foi através de seu trabalho que mulheres de diferentes origens passaram a interferir no ambiente literário que antes as excluíam e assim transformaram todo o cenário canônico dominate.

Igualdades, diferenças e direitos continuam temas de discussões, agora num horizonte mais amplo que foge da tradicional dicotomia homem/mulher, para também explorar as diferenças entre mulheres. Glória Anzaldúa reivindica o direito de se viver essas diferenças.

Nota
1. C.f.: Artigo de minha autoria: “LA LlORONA: mito e contemporaneidade”.

Referências

ANZALDÚA, Gloria. Atravesando Fronteras - Crossing Borders. In.: Bordelands/ la
frontera: the new mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1999.
BUTTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subersion of Identity, New
York, 1990 Routledge
CANDELARIA, Cordelia. “Letting La Llorona Go, or, Re/ reading History’s ‘Tender
Mercies’ ”(1993). In.: GUTIÉRREZ, Manuel de Jésus Hernández and FOSTER,
David William. LITERATURA CHICANA, 1965 – 1995 An Anthology in Spanish,
English, and Caló. Garland Publishing, Inc. New York and London, 1997.
HULL, Sonia Saldívar. Feminism on the Border: Chicana Gender Politics and
Literature. University Of California Press, 2000. p.27 – 103.
NASCIMENTO, Denise Aparecida. La Llorona: mito e contemporaneidade. In: XI
Encontro Regional da ABRALIC, 2007, São Paulo. ANAIS do XI ENCONTRO
REGIONAL DA Associação Brasileira de Literatura Comparada: Literatura, Artes e
Saberes. São Paulo: ABRALIC, 2007. v.e-book.
TORRES, Sonia Torres. Nosotros in USA: literatura, etnografia e geografias de
resistência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.



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