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As montanhas que viraram deuses

Texto adaptado pelo escritor Carlos Franco Sodja,
é uma lenda de origem asteca.

"Os soldados do Império Asteca voltavam da guerra. Não se ouvia, porém, o som de tambores nem de qualquer outro instrumento nas ruas e igrejas. No verde vale os cinco lagos espelhavam um minguado exército de esfarrapados. O cavaleiro-águia, o cavaleiro-tigre e o capitão-lobo traziam os escudos rotos e os penachos detroçados. As roupas rasgadas tremulavam ao vento em tiras ensangüentadas.
As montanhas que viraram deuses foto Nasa
Foto: Satélite/NASA
Montanhas Popocatepetl (direita) e Iztaccihuatl

Nos templos e fortalezas os braseiros estavam apagados e os defumadores para as celebrações, os enormes vasos de barro com horrível figura de Texcatlipoca, o deus da guerra, estavam vazios. Os estandartes caídos e o Conselho dos Yopica - os velhos e sábios mestres da arte e da estratégia de guerra - esperavam ansiosos a chegada dos guerreiros para ouvirem de seus próprios lábios a explicação da vergonhosa derrota.

Fazia tempo que um grande e bem armado contingente de guerreiros astecas havia partido, em som de conquista, em direção às terras do sul, onde moravam os Ulmecas, os Xicalancas, os Zapotecas e os Vixtotis, para anexá-las ao imenso domínio Anahuac. Duas luas se passaram e já se pensava nos entendimentos da conquista, quando os guerreiros voltaram derrotadas e cobertos de vergonha.
Durante esse tempo haviam lutado com bravura, sem dar nem pedir trégua. Mas, apesar da valentia na luta e dos conhecimentos sobre a guerra adquiridos em Calmeca - a Academia de Guerra - , os guerreiros voltaram dizimados, armas arruinadas, escudos amassados e ensangüentados de tantos inimigos mortos nas lutas.

A frente deste tristes soldados, um guerreiro asteca, apesar da roupa rasgada e penacho desfeito, conservava a galhardia, a altivez e o orgulho de sua estirpe.

Os homens ocultavam o rosto. As mulheres choravam e corriam a esconder as crianças para que não fossem testemunhas daquele vergonhoso regresso. Só uma mulher não chorava. Atônita, olhava com assombro o valente guerreiro asteca. Seu porte altivo e olhar sereno demonstravam que ele havia lutado e perdido dignamente para um exército esmagador em número de soldados.

A mulher ficou petrificada. Seu rosto tornou-se branco como os lírios do lago, ao sentir o olhar que o guerreiro asteca lhe dirigiu. E Xochiquetzal, era este o seu nome que significa "flor de grande beleza", sentiu que de repente lhe faltavam as forças, porque aquele guerreiro asteca era o seu amado, a quem ela havia jurado amor eterno.

Tomada de um profundo ódio, voltou-se furiosa para o tlaxcalteca que a convencera, uma semana antes, de se casar com ele, jurando-lhe que o guerreiro asteca, seu doce amado, havia caído morto nos campos de batalha contra os Zapotecas.

- Você me enganou, homem vil e desprezível. Mentiu para poder se casar comigo. Mas eu não o amo, porque sempre amei o meu asteca e vou continuar a amá-lo agora que ele voltou.

Xochiquetzal rogou mil pragas contra o mentiroso tlaxcalteca e saiu correndo desesperada pelo valo, amargando a sua desventura amorosa.

Sua silhueta graciosa se refletia na superfície das águas do grande lago de Texcoco, quando o guerreiro asteca se voltou para vê-la. E vendo-a correndo, perseguida pelo marido, pôde comprovar que ela fugia desesperada. O guerreiro asteca apertou com fúria a arma que trazia. E, separando-se das fileiras de soldados humilhados, saiu no encalço dos dois.

Poucos passos separavam a formosa Xochiquetzal do infame marido quando o guerreiro asteca os alcançou.

Não foi preciso dizer nada. Estava tudo muito claro. As palavras seriam demais. O tlaxcalteca tirou a lança que trazia escondida sob a capa e o asteca puxou da espada incrustada de dentes de jaguar e javali. Era o combate entre o amor e a mentira.

O venal, com fúria, buscava as carnes do guerreiro, e asteca dava violentos golpes de espada, buscando a cabeça de quem lhe havia roubado a amada por meio de trapaça.

Assim começaram a lutar. E na ferocidade da luta foram se afastando do vale, passando entre os lagos de onde pulavam lagartos e rãs.

A luta durou muito tempo.

O tlaxcalteca defendia a sua mulher e a sua mentira. E o asteca defendia o amor da mulher a quem amava e por quem teve forças para voltar vivo a Anahuac.

Por fim, já ao entardecer, ao asteca conseguiu ferir mortalmente o tlaxcalteca que havia conseguido conduzir a luta até quase o seu país, talvez em busca de ajuda contra o asteca.

O vencedor do amor e da verdade voltou par busca sua amada Xochiquetzal.

Encontrou-a, porém, estendia ao chão no meio do vale. Estava morta. Uma mulher que amou como Xochiquetzal não poderia viver suportando a dor e a vergonha de ter sido de outro homem, quando na verdade já tinha dado o seu ser aquele a quem amava.

As montanhas que viraram deuses
Montanhas que viraram deuses

O guerreiro asteca se ajoelhou ao seu lado e chorou com os olhos e a alma. Colheu flores com as quais cobriu o corpo inerte da formosa Xochiquetzal. Fez uma coroa com as flores perfumadas de Yoloxochitil, a flor do coração. Trouxe um defumador e queimou resinas enquanto Tlahuelpoch, o mensageiro da morte, cruzava o céu.

E conta a lenda que, em um determinado momento, a terra tremeu. Relâmpagos e trovões encheram o espaço e houve um cataclisma que não constava das tradições orais preservadas pelos velhos sábios e adivinhos, nem estava escrito nos manuscritos antigos. Tudo estremeceu. A escuridão tomou conta da terra, e pedras imensas de fogo caíram sobre os cinco lagos. O céu ficou tenebroso e os habitantes de Anahuac, apavorados.

Ao amanhecer do dia seguinte, duas montanhas nevadas cobriam o vale verde. Uma tinha a forma inconfundível de uma mulher deitada sobre um túmulo de flores. A outra, mais alta, tinha a forma de um guerreiro asteca ajoelhado.

As flores das alturas, Tepexóchitl, por crescerem nas montanhas e entre os pinheiros, junto com a neve e o orvalho da manhã, cobriram de branco toda a montanha como se fosse uma grande mortalha.

Desde então, os dois vulcões que hoje vigiam o lindo vale de Anahuac passaram a se chamar Ixtacihuatl, que significa "mulher adormecida" , e Popocatepetl, que quer dizer "montanha fumegante", porque às vezes parece um imenso defumador.

Ainda segundo a lenda, o covarde e enganador tlaxcalteca morreu desorientado bem perto de sua terra. Também se transformou em montanha coberta de neve e deram-lhe o nome de Poyautecatl, que significa "senhor do crepúsculo". Mais tarde passou a se chamar Citlatepetl ou "morro da estrela". E lá de longe, vigia o sono eterno dos dois amantes a quem nunca mais vai poder separar.

Naqueles tempos adoravam-se o Deus Lobo o Deus Colibri. E no panteão asteca as montanhas eram deuses que recebiam tributos de flores e cantos, porque de suas encostas escorre a água que fertiliza e dá vida aos campos de Anahuac.

Durante muito tempo e até pouco antes da chegada dos espanhóis, as moças que morriam por amor eram sepultadas ao sopé da Ixtacihuatl, ou seja, de Xochiquetzal, a mulher que morreu por amor e se transformou numa montanha de neve..."

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