Quando se escolhe a pílula vermelha
(dos vírus e outras resistências)

Alexandre Barbosa *

"E vejam como são as coisas porque, para que nos vissem, tivemos de cobrir nosso rosto; para que nos nomeassem, negamos o nome; apostamos o presente para ter um futuro; e para viver... morremos." Subcomandante Marcos

Ao tomar a pílula vermelha, o personagem Neo do filme Matrix (EUA, 1999) fez uma escolha. Se tomasse a pílula, azul ele continuaria a viver no mundo tal como o conhecia, com todas as imagens que lhe ocupavam a vida. Poderia gostar ou não delas, mas eram as imagens de um universo, no mínimo conhecido. No entanto, se sua escolha fosse pela pílula vermelha, não haveria volta. Todo o mundo que conhecia iria se esfarelar, porque a verdade seria revelada e o personagem poderia não gostar. E de fato, a pílula vermelha era um programa que retirava Neo da sua condição de escravo das máquinas, pilha de abastecimento de energia num mundo de escravos e seria transportado até uma nave que vagava pelos porões abandonados pelo grande computador, a Matrix, que adquirira vida própria. Ele passaria a ser a resistência, uma espécie de vírus combatido por agentes eficazes na produção. Sua entrada no mundo virtual, no mundo da Matrix seria por meio de ligações telefônicas e sua sobrevivência estava ligada ao treinamento em programas e software que fosse aprendendo.

A ficção ultrapassa o limite da tela do cinema quando se observa o enredo não como se ensinam a ver, mas como o revolucionário o enxerga. As coincidências deixam de ser meras coincidências e levam ao alerta. Basta raciocinar.
Na sociedade de controle do século XX, mais do que minar a energia política do indivíduo gastando sua energia mecânica, a preocupação está na ocupação de corpo e mente ao mesmo tempo. Um "mundo cor-de-rosa" é pintado nas telas do cinema e da TV, nas páginas dos jornais (ainda que com os espaços para o sangue e para o pobre, que faz parte desta falsa naturalidade, como se verá), nas placas de publicidade, nas comemorações esportivas, nos feriados e nas vitrines de supermercados. Edson Passeti, no artigo “Governamentalização do Estado e Democracia Midiática” analisa que "não se pretende minar as energias políticas do corpo, mas mostrar que a política no Estado é democrática e segura. Não há por que se preocupar com política: ela é o bem que garante segurança ao indivíduo e a produtividade com eficiência deste trabalhador disciplinado e controlado. O mundo dos sujeitos sujeitados permanece inalterado" .

A discussão política é tema para os técnicos. Por este raciocínio, quem deve se preocupar com saúde, habitação, distribuição de renda é o governo, o cidadão deve discutir os casos amorosos de astros da TV, a partida de futebol, os litros de silicone das modelos, a virgindade das cantoras. É o mundo virtual, como aquele criado pela Matrix. E cada um recebe seu programa, seu banco de dados com o qual deve participar sem saber que está sendo programado.

"O controle da alma", na tese de Foucault, é feito de maneira tão sutil, que até o indivíduo que se julga contestador acaba envolvido pelo jogo. Alguns exemplos são claros. Quantos não defenderam a ação norte-americana no Iraque, na Etiópia, no Haiti e, mais recentemente, em Kosovo, erguendo a bandeira das minorias massacradas por um "ditador sanguinário"? A versão oficial, a história dos vencedores, conquista os corações e todos vão às ruas pedir a morte de Sadam, e de outros "inimigos número 1" e se esquecem dos interesses comerciais e políticos da potência americana. A cada rebelião na Febem os programas de debates e as segundas páginas dos jornais se enchem de debates sobre o que fazer com os menores. Do extermínio às prisões agrícolas não há uma voz que se levante para discutir a validade do sistema carcerário, do sistema penal, do sistema judiciário, não quem discuta as condições materiais que levam, como dizia Marx, à lupemproletarização.

A TV tem o papel do grande mediador, que leva todos ao consenso por meio da sedução. Sai de cena a repressão física explícita como controle e entram as trilhas sonoras, as imagens, o pássaro sujo de petróleo, a baleia encalhada, os números de telefone para doar cinco, dez, trinta reais. Regis Debray assinala que o Estado sedutor vibra por meio de todas as suas antenas com os acontecimentos felizes e infelizes da aldeia global. "Ao se comover cada vez mais e ao se engajar cada vez menos, acasalando a excitação visual com a apatia moral, ele pegou o mundialismo passivo" .

A preocupação ecológica excessiva e a filantropia exagerada causadas pelo desespero frente ao Estado incapaz de resolver a miséria, distancia o indivíduo do dever político de contestar, de quebrar com a ordem, de querer trocar um sistema pelo outro, de exigir um novo mundo. Contestação, protesto, revolução são palavras quase que proibidas, vistas como parte de uma espécie de dicionário de dinossauros.

No entanto, novamente como no filme, a Matrix deve parecer perfeita. E os enigmáticos agentes, que na produção cinematográfica aparecem na caricatura de burocratas de estado, estão para manter a ordem, detectar novos vírus e aplicar programas eficientes de extermínio. Os agentes na sociedade de controle abrem as devidas brechas nos seus muros para a participação. Aqui entram as páginas policiais, os cadernos de geral, as reportagens sobre a fome na África, os documentários sobre os sem-terra, as entrevistas com as vítimas da guerra, quase sempre acompanhadas do 0800 com o número da conta de um banco onde o indivíduo indignado pode contribuir com sua parte para mudar o mundo ou simplesmente manifestar sua revolta.

Ligando para o apresentador da TV, mandando uma carta para o jornal ou pintando a cara o súdito veste a fantasia de contestador, geralmente filiado a uma ONG. O governo faz sondagens e descobre onde a população tem demandas e faz políticas específicas para cada uma. Multiplicam-se os direitos sem multiplicar iniciativas de acabar com estas demandas. Assim, o pacote de açúcar depositado na pilha de donativos faz o sujeito virar as costas e voltar para casa alegre por ter participado e contribuído com sua parte.

Não é o caso, evidentemente, de desmerecer por completo as campanhas de fraternidade. O próprio sociólogo Betinho, idealizador da Ação pela Cidadania, a mais famosa das campanhas de arrecadação de alimento nos últimos anos, dizia que tudo aquilo era um paliativo, uma etapa inicial e de emergência para uma situação desesperadora. Porém, a multiplicação dos "criança esperança" e "SOS" não trazem no contexto a crítica ao capitalismo, ao sistema neoliberal que, por definição, pretende a livre concorrência entre os indivíduos e o sucesso para o mais forte. É claro que para quem estava desempregado passar a ganhar R$ 150,00 por mês em trabalhos pesados como de limpeza das estradas de ferro é um grande avanço. Mas e as demais condições para esta população sobreviver? Lazer, educação, moradia, saúde e todas as outra famosas metas sociais que o capitalismo promete atingir? É como se nivelasse por baixo a exigência.

Novamente aqui, ficção e realidade (realidade?) se confundem. Um dos personagens pode comer um bife suculento num belo restaurante mesmo sabendo que é falso, criação da Matrix, e que continua sendo um escravo, que continua sendo uma pilha. Da mesma forma que contestador que se satisfaz quando a Coca-Cola doa R$ 100 mil para a campanha da fraternidade. Continua o mesmo capitalismo, continua o mesmo neoliberalismo, continua a mesma exploração do homem pelo homem.

E onde estão as resistências? No Manifesto do Partido Comunista, Marx afirma que "a burguesia produz seus próprios coveiros". Ou seja, o próprio desenvolvimento da burguesia mina o terreno em que ela assentou seu regime de produção. Para Marx, os adversários da burguesia deveriam usar as próprias armas da burguesia na luta. Portanto, a resistência deve acontecer no próprio seio do inimigo.

Recorrendo mais uma vez à ficção cinematográfica, Neo, Morpheus e seus companheiros eram os vírus dentro da máquina, utilizando os próprios programas da Matrix para combatê-la. Como numa guerrilha, os vírus se movem rápido, atacam de surpresa, em pequenos grupos. A vitória final (desculpas aos que ainda não assistiram) somente acontece quando o herói consegue enxergá-la em todos seus códigos, tornando-se mais rápido, antecipando-se ao computador.

Passetti, no artigo já citado, entende que "a indústria deixou a superfície para se tornar sideral, na mesma intensidade que as comunicações no planeta se tornaram mais próximas e instantâneas, criando possibilidades para que, dentro da metrópole (...) aparecessem novas formas de resistências." O novo espaço para confrontos, de acordo com Passetti, fica estabelecido entre os hackers e programadores de vírus contra os controladores, os satélites e os programas de vigilância.

A pílula vermelha que Morpheus entrega a Neo é a senha para que o "súdito da telerrealidade" possa agir de maneira livre por meio da informática, sem assumir uma identificação oficial. Ele pode estar em qualquer parte e pode fazer sua voz chegar a qualquer um.

A primeira iniciativa de usar a própria arma da burguesia contra ela mesma foi quando o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) do México "lançou" sua página na Internet, expondo ao mundo, por meio de boletins diários, a situação nas selvas de Chiapas. Em pouco tempo o mundo abraçou sua causa, mesmo que a tenha esquecido depois. No entanto, é inegável que a militância digital foi e é, de extrema importância, principalmente na sociedade de controle. São dezenas de páginas que se multiplicam na WWW, ao mesmo tempo em que cresce o medo dos controladores e a cada dia são novas as tentativas de pensar em freios para o monstro que eles mesmos criaram.

Recusar a situação de súdito e entrar nesta batalha eletrônica é uma escolha. Pode-se, naturalmente, tomar a pílula azul e voltar para a passiva situação de escravo num mundo virtual, enganado por um bife enquanto sua energia é consumida, de forma sedutora, pelos controladores.

Desfazer-se do templo das imagens, livrar-se da sedução, ocupar-se do que é inaceitável, não acatar a historiografia oficial, recusar a versão dos vencedores, ser revolucionário nas pequenas atitudes é o primeiro passo da escolha da pílula vermelha.


Referências bibliográfias

DEBRAY, Regis. O Estado Sedutor. Petrópolis: Ed. Vozes, 1994

MARX, Karl & ENGELS, F. O Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Global, 1988.



* Alexandre Barbosa, professor universitário (Uninove) e jornalista. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e especialista em Jornalismo Internacional pela PUC-SP. Clique aqui para entrar em contato.