Entenda o que levou a Veja a publicar a capa sobre Che Guevara: análise a partir da Teoria do Jornalismo.
Alexandre Barbosa *
"Me volví para Santiago sin comprender el color
con que pintan la noticia,
cuando el pobre dice no, "
Violeta Parra
Não demoraram as reações ao texto publicado na edição de 29 de setembro da Revista Veja. Protestos em frente à Editora Abril e na Avenida Paulista. Textos em sites, blogs, listas de discussão. Infelizmente, o que a Editora pretende é justamente isso: gerar índice de audiência.
A indústria jornalística, na essência, em nada se difere de uma fábrica, precisa de lucro para manter as atividades. E a Editora Abril, por ser indústria jornalística, mantém o lucro por meio da venda de espaço publicitário em suas publicações. O espaço será mais caro quanto maior for o índice de audiência. Portanto, para os objetivos financeiros da editora, soltar uma capa "polêmica" só ajuda a elevar a audiência e conseguir melhores preços pelos anúncios.
Além desta questão capitalista, que bastava para não dar grande crédito ao texto, vale uma análise a partir das teorias do jornalismo, com base em teóricos
de credibilidade reconhecida como Mauro Wolf, Pierre Bourdieu e Jorge Pedro Sousa (ao contrário dos que a Veja costuma citar nos textos). As teorias do jornalismo tentam explicar porque as notícias são como são, ou seja, que critérios são utlizados para definir o que é notícia e de que forma são definidas tanto a abordagem dos fatos quando a construção do texto noticioso.
Quem se interessar mais pela Teoria do Jornalismo, vale consultar o material publicado no canal Aulas. A crítica completa à Veja e à indústria jornalística está na dissertação de mestrado "A solidão da América Latina na grande imprensa brasileira", publicada na bilbioteca de teses da USP.
Teoria da ação pessoal ou Gatekeeper
Para o teórico Jorge Pedro Sousa, não como negar a ação pessoal do jornalista nos textos em que escreve. A história pessoal, a formação acadêmica e até a região em que mora ou a forma como se dirige ao trabalho influenciam nas categorias de percepção do que é ou não notícia.
“Os jornalistas têm interesse em serem aceitos e reconhecidos como (bons) profissionais, quer aos olhos do colega (através de mecanismos como a progressão na carreira e o salário) quer aos olhos do público (posicionando-se como os únicos profissionais capazes de fornecer informação jornalística de interesse público). Assim sendo, seriam capazes de sacrificar a necessidade que possam ter de agir sobre as dinâmicas sociais aos ditames profissionais; seriam capazes de obedecer à política editorial da empresa em que estão (registrada no manuais de redação e de estilo) mesmo que com ela não concordem. ”(SOUSA: 2002-79)
Um dos redatores do texto é Diogo Schelp, editor de Internacional da Veja. Uma das maneiras de compreender as imprecisões históricas cometidas seria percorrer a formação acadêmica do editor. As poucas referências que encontrei a Schelp dão conta de sua formação na ECA - em princípio uma boa formação. Mas a formação não basta para explicar os erros da revista.
Apenas para ficar em um exemplo, o texto diz que a América Latina viu um banho de sangue, que, na opinião dos autores, foi provocado pelo exemplo de Guevara. Isto é uma simplificação do tema, que não se justifica pela "falta de espaço para escrever mais". Uma revista semanal pode se dar ao luxo de aumentar o número de páginas, principalmente de pautas que são pensadas previamente. As lutas sociais promovidas no continente a partir dos anos 60 se inspiraram no modelo cubano, é verdade, mas também foram conseqüência direta da exploração capitalista, do imperialismo norte-americano (principalmente na América Central) e dos séculos de exploração colonial.
Além desta simplificação, o texto não explica com o cuidado que se deve o que foi o tal "golpe comunista" na Revolução Cubana. De fato, o movimento 26 de Julho,liderado por Fidel, não nasceu comunista, mas nacionalista, para derrubar Batista. Porém, diante do avanço da ofensiva norte-americana, que culminou com a invasão de Playa Girón em 1961 por tropas mercenárias patrocinadas pelos EUA, Fidel encontrou respaldo na URSS, o que apenas deu mais apoio às correntes marxistas que conquistaram, aos poucos, a hegemonia da revolução. Ser anti-imperialista e socialista era uma necessidade da revolução cubana.
Outra imprecisão histórica é creditar o abandono de Guevara na Bolívia ao fracasso de suas idéias. Para ter uma idéia mais clara deste período é necessário estudar as teses da esquerda sobre a tomada do poder. A URSS não apoiava a tomada do poder pela via armada e recomendava aos Partidos Comunistas alinhados que não seguissem neste caminho e adotassem a via pacífica ou revolução por etapas. Não foi só o PC da Bolívia que não apoiou o foquismo (luta armada baseada no exemplo cubano), no Brasil o PCB não entrou na luta armada e rachou em diversas organizações armadas. Porém, essas organizações não existiriam se a ditadura militar não reprimisse as lutas institucionais.
Além de erros sobre a família de Guevara, que não pode ser qualificada como esquerdista, no máximo, peronista. Tão pouco, uma famíia rica, mas de classe média. Mas é tradição desqualificar lideranças de esquerda que não estejam vestindo macacão de operário.
Estes erros da análise podem ser creditados ao que Sousa qualificou como "sacrifício das necessidades profissionais". Como editor de um veículo como Veja, o que equivale a um cargo de chefia e de confiança, Schelp teria de se submeter aos princípios ideológicos da Editora Abril. Essa tese é explicada pelo argumento de Jorge Pedro Sousa ao afirmar que não é apenas a ação pessoal do jornalista que formata o texto jornalístico, mas uma confluência de outros fatores, como a ação ideológica e organizacional, além das características da atividade jornalística.
Ações ideológica e organizacional
Por essas teorias, os jornalistas sofreriam influência da ideologia dos patrões ou da empresa a que estão ligados. Para Warren Breed, citado por Mauro Wolf, o contexto profissional-organizativo-burocrático exerce influência decisiva nas escolhas do jornalista. A fonte de orientação do jornalista não seria o público (como diz o senso comum da profissão), mas o grupo de referência formado por colegas e superiores. O jornalista é socializado na política editorial da organização por meio de uma lógica de recompensa e punições. Ele se conforma com as normas editoriais, que passam a ser mais importantes do que as crenças individuais.
A Veja é uma publicação voltada para as classes média e alta urbanas. Para comprovar, basta ver os anúncios publicados. Um veículo é feito para quem pode adquirir os produtos e serviços anunciados. Uma revista de dietas não publica anúncios de cerveja. Ao folhear a revista Veja estão anúncios de jóias, pacotes internacionais de viagem, carros importados, entre outros. Não é uma revista feita para as classes populares, é feita para agradar aos interesses dos potenciais consumidores de seus anúncios. Se a classe média paulista passar a "desconfiar" da "qualidade" da revista, deixará de adquiri-la o que diminui o índice de audiência.
Isso explica a escolha de fontes para os textos. Não são fontes que necessariamente expliquem o fato, mas que sirvam para comprovar teses definidas a priori. Entre essas teses está a desqualificação e criminalização dos movimentos sociais e dos governos nacionalistas da América do Sul, em especial os governos de Evo Morales, Rafael Correa e Hugo Chávez.
Essa desqualificação é motivada pela ideologia da empresa Abril. No manual de redação da Abril, página 15, a empresa se define como defensora da livre iniciativa, ou seja, do liberalismo econômico, que é combatido pelas iniciativas da Bolívia, por exemplo. Por isso, as fontes que sirvam para destruir visões que são contrárias às da empresa são escolhidas para darem as "aspas" dos textos.
Diogo Schelp, em texto sobre Hugo Chávez (edição de 4 de maio de 2006), utilizou Andrés Oppenheimer, colunista do Miami Herald, para comprovar suas teses de que Chávez era um clone de Fidel Castro. O Miami Herald é o jornal da comunidade anti-castrista de Miami, claramente opositora ao regime cubano. Não haveria problema algum em ouvi-lo se também fosse dada voz um historiador, brasileiro que fosse. Estranhamente, Emir Sader nunca é fonte com a desculpa de que ele é parcial. Porém, não é possível dizer que Oppenheimer não seja. Escutar os dois lados é a norma número um do jornalismo objetivo.
No texto sobre Che, novamente fontes ligadas a Miami são usadas. Napoleón Vilaboa, exilado em Miami, que ganhou dinheiro explorando a saída de cubanos pelo porto de Mariel, em 1980, no rastro de um acordo firmado entre Cuba e Estados Unidos; Pedro Corzo, do Instituto de Memória Histórica Cubana, sediado em Miami e Jaime Suchlicki, historiador cubano, da Universidade de Miami. Mais uma vez, nenhuma fonte cubana, argentina ou brasileira.
O maior erro está na leitura parcial do que é considerada, até pela revista, como a melhor biografia de Guevara, a feita pelo historiador norte-americano Jon Lee Anderson. Publicada no Brasil, a obra de Anderson mostra os processos de pena de morte feitos durante o período de guerrilha. Porém a revista os descontextualizou do período de guerra civil que a ilha viveu.
Pior, uma frase de Anderson foi pinçada e quem não leu a biografia pode ter a sensação que o historiador defende a tese de que o mito de Che não se justifica. Não é o que se lê na página 864, último parágrafo do epílogo. " Na cidadezinha de Vallegrande (...) há uma frase pichada : Che - vivo como jamás quisiéron que estuvieras. Essa frase (...) descreve o verdadeiro legado de Che. De alguma forma, ele manteve uma posição de força na imaginação popular, parecendo transcender tempo e lugar. (...) Che desafiou a morte.(...) Ele é imortal porque outros o querem assim, como o exemplo solitária do Novo Homem que um dia viveu e desafiou outros a segui-lo".
Sem entrar na questão do simbolismo do ato de deixar o cargo de ministro de Cuba (e, ao contrário do que diz Veja, Guevara foi responsável pela tentativa de industrialização da ilha que não deu certo, entre outras razões, pelo bloqueio econômico imposto à Cuba) para lutar em outras terras, a revista tenta comprovar que não razão para cultuar a memória de Che. A quantidade de atos, apenas em São Paulo durante o mês de outubro, que fazem homenagem ao guerrilheiro, no mímimo, serve para mostrar que a história não foi jogada na lata de lixo.
Mas a Veja coleciona exemplos de desqualificação das lutas populares. Exemplo: em artigo assinado por Reinaldo Azevedo - e endossado por Veja pela vinheta "Artigo Veja" - na edição de 12 de setembro de 2007 até Paulo Freire não escapou. "As escolas brasileiras, deformadas por teorias avessas à cobrança de resultados - e o esquerdista Paulo Freire prestou um desserviço gigantesco à causa - perdem-se no proselitismo e na exaltação do chamado universo e educando".
Para ficar apenas dentro da análise jornalística, a capa da Veja cumpriu o papel da indústria jornalística: elevou o índice de audiência. Descarregado de paixões, no entanto, ao analisar as fontes escolhidas, a abordagem do texto e levando em consideração o manual de redação, o público alvo e o histórico recente da revista, o leitor percebe que o que menos interessa é a precisão histórica. Mas as outras vozes, como a imprensa alternativa, têm um compromisso com a História. A capa de Veja também serviu para aumentar o volume dos protestos encabeçados pelos movimentos sociais contra a indústria jornalística que aconteceram nas capitais brasileiras durante a primeira quinzena de outubro.
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Artigo completo publicado no Observatório da Imprensa
40 anos da morte de Che Guevara, por Guilene Matos
Reportagem publicada na Agência Carta Maior, sobre o ato coordenado pelo presidente da Bolívia, Evo Morales.
Referências bibliográfias