Preconceito na América Latina
Por Alexandre Barbosa*
Clique aqui para entrar em contato
![]() |
|---|
| Enquanto nos movimentos sociais há incentivo para a união das lutas das várias nações latino-americanas, as elites tentam influenciar as massas na formação de estereótipos. Foto: Ciranda do MST |
Muitas vezes é o preconceito que faz desaparecer dos noticiários não só a América Latina, mas também a Ásia, a África e qualquer outra região pobre do globo.
Quando um brasileiro da América Latina oficial olha para seu irmão chileno ou boliviano ele não os vê como “irmão”, mas como “o outro”. Concepção clássica: bárbaro é o outro! Ianni afirma que “a idéia de barbárie está acompanhada do preconceito racial, darwinismo social, quando se criminalizam as reivindicações e os protestos de setores populares do campo e cidade, envolvendo o índio, mestiço, negro, mulato e branco, todos trabalhadores braçais, reforçado pela idéia de que o bárbaro é aquele que pertence a outra casta, a outra classe, aos setores subalternos do campo e da cidade. E mais bárbaros ainda, porque reivindicam, questionam, protestam, lutam.”1
De acordo com essa idéia, latino-americano é o outro! Bárbaros seriam, enfim, os movimentos populares, os guerrilheiros da América Central, os trabalhadores bolivianos, os operários argentinos, os zapatistas do sul do México, os trabalhadores sem-terra do Brasil.
Para Juan Comas, o preconceito está baseado menos nas diferenças genéticas e mais nos diferentes graus de desenvolvimento, justificado por uma “superioridade racial de um povo eleito”, e nasceu efetivamente com a expansão mercantil européia.
“Pode-se afirmar que não havia verdadeiro preconceito racial antes do século XV, uma vez que, antes desta data, a divisão da humanidade prendia-se não tanto ao antagonismo de raças mas sobretudo à animosidade entre cristãos e infiéis – uma diferença mais superficial, desde que as divergências entre religiões podem ser vencidas, enquanto que a barreira racial biológica é intransponível. Com o início da colonização africana e a descoberta da América e do caminho para as Índias pelo Pacífico, houve um considerável aumento dos preconceitos de raça e cor. Isto pode ser explicado face aos interesses econômicos, ao fortalecimento do espírito do colonialismo imperialista e a outros fatores”.2
Comas mostra o erro que cometem determinados grupos ou partidos ao transformar em superioridade racial, erroneamente, o fato de alguns povos que diferem na aparência apresentarem maior ou menor grau de subdesenvolvimento. “A história da humanidade está cheia de ‘povos eleitos’ que se vangloriam de sua pretensas virtudes e de suas esplêndidas qualidades inatas (...) É esse contraste a verdadeira fonte e origem do racismo”.3
A história da América Latina foi também a história da estratificação social construída na discriminação racial a criollos, mestiços, índios e negros. Houve quem justificasse a escravidão com argumentos científicos e históricos, como Juan Ginés de Sepúlveda que admitiu a “inferioridade e perversidade naturais do aborígene americano” assegurando que são “seres irracionais” e que “os índios são tão diferentes dos espanhóis como a maldade é da bondade e os macacos, dos homens”.4 Ou Hume ao dizer que “estou propenso a crer que os negros são naturalmente inferiores aos brancos”.5 Do outro lado, o Padre Bartolomeu de las Casas foi um dos poucos que defendeu e lutou pela a idéia de que todos os povos do mundo são constituídos por homens iguais, não havendo “meio-homens” obrigados a obedecer às ordens de outros.
O pior, de acordo com Comas, é usar argumentos psedobiológicos como uma cortina de fumaça para encobrir as intenções opressoras de seus defensores. “A noção de que os mais fortes estão biológica e cientificamente justificados por destruírem os mais fracos foi aplicada tanto em conflitos internos como entre as nações.”6
Nos conflitos internacionais, diversas vezes o racismo serviu de desculpa à agressão, pois o agressor não se sentia preso a qualquer consideração – nem mesmo humanitária – que o ligasse a “estrangeiros pertencentes a raças inferiores, classificadas pouco ou nada acima dos animais irracionais”. 7 Não se fala aqui só dos facistas em relação aos judeus, ciganos e homossexuais, nem só dos ibéricos aos índios. Os recentes conflitos no Iraque e Afeganistão e as incursões do Plano Colômbia são exemplos claros deste racismo como desculpa da agressão militar. Mesmo com grupos tão semelhantes nos fenótipos, tal qual acontece no México, é espantoso como o racismo deprecia a luta dos zapatistas de Chiapas como prova o texto escrito pelo subcomandante Marcos, em 17 de março de 1995, sobre o levante no sul do México:
“Nós, os habitantes primeiros destas terras, os indígenas , fomos sendo esquecidos em um canto, e o resto começou a crescer e a ficar forte, tínhamos apenas a nossa história para nos defender e a ela nos aferramos para não morrer. Assim chegou esta parte da história que até parece engraçada, porque apenas um país, o país do dinheiro colocou-se acima de todas as bandeiras. (...) E nós? Cada vez mais esquecidos. A história não era mais suficiente para evitar que morrêssemos, esquecidos e humilhados. Porque morrer não dói, o que dói é o esquecimento. Descobrimos, assim, que não existíamos mais, que os governantes tinham se esquecido de nós na euforia de cifras e taxas de crescimento. Um país que se esquece de si mesmo é um país triste; um país que esquece do seu passado não pode ter futuro. Então tomamos as armas e penetramos nas cidades onde éramos animais. Fomos e dissemos ao poderoso ‘Aqui estamos!’, e gritamos para todo o país ‘Aqui estamos!’, e gritamos para todo o mundo ‘Aqui estamos!’”.8
O racismo é muito pior quando é aplicado não só para separar grupos étnicos (o que já é odiável e desprezível), mas quando afasta as diferentes classes sociais dentro do que seria considerado um mesmo grupo étnico. Comas insiste que não há sequer argumentos científicos que possam justificar o absurdo do preconceito. “A grande maioria das áreas de civilização avançada são habitadas por grupos surgidos do cruzamento de raças”.9
É esse olhar preconceituoso que a América Latina Oficial e seus respectivos órgãos de comunicação têm para com a América Latina Popular. Os meios de comunicação de massa brasileiros olham os vizinhos latino-americanos como estranhos, não como iguais. “Parece possível distinguir duas tendências fundamentais na reação ao grupo estranho: uma de admiração e aceitação, outra de desprezo e recusa”.10
A admiração e aceitação estão reservadas para o mundo das variedades: pela sensualidade, pelo exotismo de comidas e crenças. O programa Globo Repórter sobre a Guatemala a coloca como um lugar místico, colorido, quase que tão distante como as pirâmides do Egito ou tão perdido no tempo quanto os Jardins Suspensos da Babilônia. Na verdade, a admiração – a xenofilia – do brasileiro está mais para os norte-americanos ou europeus, dos quais são assimilados e incorporados costumes, linguagens, crenças e vocábulos.
O desprezo e recusa fazem parte do cotidiano, desde “inocentes” matérias esportivas até as análises políticas. Jogo da Taça Libertadores da América de um time brasileiro contra um time venezuelano, boliviano, equatoriano, peruano ou paraguaio é considerado como “favas contadas”. Um grupo de mexicanos mascarados, bolivianos em greve ou desempregados argentinos protestando soam aos jornalistas brasileiros como bárbaros em guerra.
“O estrangeiro”, afirma Dante Moreira Leite, “provoca a nossa desconfiança, às vezes nosso medo. Nem sempre entendemos os seus gestos e certamente não compreendemos a sua língua. Ele não se veste como nós, a sua fisionomia pode ser diferente da nossa e não adora os nossos deuses”.11 O intrigante é que a xenofobia é aplicada muito mais aos vizinhos do que aos norte-americanos ou europeus.
A Inglaterra, durante décadas, estimulou os conflitos entre países da América do Sul, estimulando a rivalidade Argentina vs. Brasil, ao mesmo tempo em que adoçava a boca das elites autóctones com as migalhas do desenvolvimento capitalista, trazendo velhas locomotivas, embarcações ou gastando suas libras nos prostíbulos.
De acordo com Moreira Leite, o nacionalismo – e suas conseqüências – nasce das elites e depois é inoculado nas massas. “Os grupos dominantes impõem – através da educação e dos vários meios de comunicação – o sentimento patriótico, o que evidentemente seria desnecessário se este fosse espontâneo nas massas populares”.12
Assim, o jornal, o rádio e a televisão, como instrumentos de um movimento intelectual e político, impuseram o nacionalismo e o patriotismo, acentuando-os em períodos de crise ou guerra. Na esteira, os preconceitos como preguiça do povo que se perde em siestas e fiestas, e às “repúblicas de bananas” governadas por ditadores corruptos – para ficar em apenas dois exemplos – também são cultivados nos setores populares pelos meios de comunicação de massa.
Para Darcy Ribeiro, este racismo escamoteia a realidade da dominação colonial, neocolonial e classista:
“Sobre a propalada preguiça latino-americana deixe-me dizer-lhe que um operário da Volkswagen do México ou de São Paulo trabalha o mesmo ou mais que seu colega alemão, ganhando um salário cinco vezes menor. O mesmo ocorre com o bóia-fria do Paraná ou o vaqueiro da Bahia, que trabalham mais do que qualquer peão do Texas, labutando em condições muitíssimo piores e ganhando dez vezes menos. (...) A preguiça entre nós, com luxúria e o dengo, nunca foram coisa de negro nem de índio ou de mulato e nem mesmo de branco pobre. É a fatia do branco rico, a mais gostosa de suas muitas regalias (...) O mandonismo caudilhesco que também nos atribuem não é coisa nossa; não é debitável ao povo latino-americano. Ele é que sofreu e sofre na carne a boçalidade dos régulos escravistas, coloniais ou multinacionais que a civilização européia e sua filial ianque nos impõem como seus servidores mais fiéis (...) Ditadores tropicais sanguinários, como Somoza, Trujillo e Batista, são criaturas que Washington criou, amestrou e nos impôs para perpetuar o domínio ianque sobre as ‘repúblicas de bananas’ que mantém no Caribe. Olhe um pouco para a Nicarágua, El Salvador e a Guatemala e se pergunte quem é que quer reter a lucrativa tradição bananeira?”.13
A América Latina tem sim a seu favor, novamente apenas para dar exemplo no campo da música e da literatura, nomes de muito valor que nada apresentam de depreciativo da música e literatura de outras partes do planeta. No Brasil, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drumond de Andrade, Chico Buarque, Nara Leão, Elis Regina e Tom Jobim. Na Guatemala, Miguel Ángel Astúrias. Na Nicarágua, Carlos M. Godoy. Na Colômbia, Gabriel García Márquez. No Chile, Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Victor Jara, Violeta Parra. Na Argentina, Júlio Cortázar, Jorge Luis Borges, Ernesto Sábato, Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanqui. Em Cuba, Ibrahim Ferrer, Pablo Milanes, Nicolas Guillén e Silvio Rodrigues. Apenas alguns nomes de uma grande lista.
A complexidade cultural da América Latina também é grande e merece a atenção dos meios de comunicação: sua complexidade musical, por exemplo, parece despercebida pelos jornais de cultura brasileiros. Há grupos com características semelhantes espalhados por diferentes regiões: os de influência negra como o samba, a salsa, o merengue, a cumbia e a rumba; os de influência indígena, como as músicas andinas e as da América Central e as de influência camponesa, resultado da mescla do índio com o trabalhador branco pobre, como as guarânias e as sertanejas; o último grupo é o da música urbana, como o tango, as milongas e os boleros.
A música camponesa na América Latina reúne muitas características comuns, como a temática do amor, do trabalho rural, apologia à natureza e à vida simples. A música paraguaia é triste, talvez reflexo do desastre em que ficou o país após o massacre da Guerra do Paraguai. Ao som da harpa paraguaia as letras descrevem situações de muita dor e solidão.
Também belas são as músicas chilenas, principalmente as de Violeta Parra, outro grande nome da poesia chilena ao lado de Nicanor Parra. Ritmadas pela quena, pelo charango e pela sampoña, a música chilena é muito ligada ao regional, à descrição do cotidiano do país. Já o drama do tango tem uma carga grande de machismo e da vida urbana de Buenos Aires, com melodias igualmente tristes.
As músicas de influência negra são alegres. Apesar da trágica história dos negros nas Américas, elas trazem o ritmo forte e contagiante. O único lugar em que a música negra é triste é o sul dos Estados Unidos, onde os lamentos e orações dos trabalhadores negros deram origem ao soul, ao blues e, conseqüentemente ao rock. O samba brasileiro segue a característica de música alegre e descontraída de seus ritmos irmãos do Caribe.
As manifestações folclóricas são diversificadas e ricas de lendas, mitos e canções. No campo da literatura são seis Prêmios Nobel entre os escritores latino-americanos. Alguns são autores de obras fundadoras, como o Canto Geral, de Pablo Neruda e Week-end na Guatemala, de Miguel Ángel Astúrias. Outros, com histórias emocionantes, como a professora primária Gabriela Mistral, autora de Desolación, La Lengua de Martí, Tala e Poema de Chile. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez é constantemente eleito como uma das obras mais importantes da literatura mundial, até mesmo pelos norte-americanos, 14 mas nem mesmo essa chancela o transforma em leitura obrigatória nas escolas e universidades.
A chilena Isabel Allende, sobrinha de Salvador Allende, o primeiro presidente socialista a tomar o poder pela via eleitoral, é uma das escritoras mais vendidas no planeta, retomando a linha do realismo fantástico de García Márquez, Ernesto Sábato e Júlio Cortázar.
Para os preconceituosos, Ianni deixa um recado: “Aquele que imagina que o bárbaro é o outro esquece que o eu não basta por si, que o eu depende do outro. [...] O contraponto está em que a civilização produz a barbárie, ambas engendram-se reciprocamente, uma inexiste sem a outra”.15
* Alexandre Barbosa, idealizador do site latinoamericano.jor.br é jornalista formado pela UMESP (turma de 97), mestre em Ciências da Comunicação pela USP (2005) e especialista em jornalismo internacional pela PUC-SP (2000). Atualmente é professor universitário de cursos de comunicação social e consultor em comunicação institucional.
1 IANNI, Octavio. O Labirinto latino-americano. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1993. p 14-18.
2 COMAS, Juan. “Os Mitos Raciais”. In: Raça e Ciência. São Paulo: Perspectiva/Unesco. [s.d.]
3 Idem.
4 Apud COMAS, Juan. “Os Mitos Raciais”. Op. Cit.
5 Idem
6 COMAS, Juan. “Os Mitos Raciais”. Op. Cit.
7 Apud COMAS, Juan. “Os Mitos Raciais”. Op. Cit.
8 SUBCOMANDANTE MARCOS. “Todos somos mexicanos”. In: DI FELICE, Mássimo & MUÑOZ, Cristobal. A revolução invencível: Subcomandante Marcos e Exército Zapatista de Libertação Nacional. Cartas e comunicados. São Paulo: Boitempo, 1998.
9 COMAS, Juan. Op. Cit.
10 LEITE, Dante Moreira. “As raízes do caráter nacional”. In: O Caráter Nacional Brasileiro. São Paulo: Editora Ática, [s.d.] p. 15-36.
11 LEITE, Dante Moreira. “As raízes do caráter nacional”. In: O Caráter Nacional Brasileiro. São Paulo: Editora Ática, [s.d.] p. 15.
12 LEITE, Dante Moreira. “As raízes do caráter nacional”. In: O Caráter Nacional Brasileiro. São Paulo: Editora Ática, [s.d.] p. 23.
13 RIBEIRO, Darcy. Op. Cit. p.101-03.
14 Em novembro de 2003, o ex-presidente norte-americano Bill Clinton declarou que Cem Anos de Solidão é um dos livros mais universais que já leu durante evento de lançamento das memórias de García Márquez nos EUA.
15 IANNI, Octavio. Op. Cit. p. 15.
18/02/2008
Se você gostou deste artigo, leia também:
| HOME CONTATO ARTIGOS IMPRENSA LEMBRAR MÚSICA PARA LER PARA VER ALEXANDRE AULAS |
|---|