Madres de la Plaza de Mayo são patrimônio da América Latina

Por Adriana de Carvalho Alves*
Madre de Mayo
Doña Juanita, 92 anos, há 30 na luta.
Foto: Adriana de Carvalho Alves

Em recente visita a Buenos Aires, tive a oportunidade de estar diante de uma senhora que compõe um dos movimentos sociais mais significativos da América Latina. Conversei cerca de trinta minutos com doña Juanita, uma “abuela' de 92 anos de idade, 30 anos ininterruptos de luta. Esta senhora, de voz suave e terna, tem jeitinho de vovó do interior, no entanto, o conteúdo de sua fala é impregnado de vitalidade e, em poucas palavras, narrou-me a história do surgimento da associação. Eu, estudante universitária, devoradora de livros teóricos sobre a história da América Latina, me coloquei no papel de ouvinte, aprendiz. Aprendi muito naquela tarde.

As “Madres de la Plaza de Mayo” foram inseridas na luta quando seus filhos e netos, ativistas na luta contra a ditadura na Argentina, começaram a desaparecer. Elas eram donas de casa, se ocupavam dos afazeres do lar e, em sua grande maioria, não compreendiam em profundidade o motivo da luta de seus filhos. Iam à delegacia e não obtinham respostas... na igreja, ouviam dos padres que eram seus filhos e netos os próprios culpados pelos desaparecimentos.

As ausências foram ficando cada vez mais constantes, mais filhos sumiam, mais mães choravam.

Madre de Mayo
Na Plaza de Mayo, lenços que simbolizam as mães foram pintados no chão.
Foto: Alexandre Barbosa

No dia 26 de abril de 1976, sábado, as mães se uniram para chorarem juntas na Plaza de Mayo (centro de Buenos Aires). Os filhos deixaram de pertencer a apenas uma mãe, a maternidade foi socializada.

Como era proibida a concentração de pessoas, ato passível de prisão – lembrando que o país estava sob uma ditadura – a polícia as dispersou. As mães se foram, mas retornaram numa quinta-feira. Já que não podiam ficar paradas, começaram a circular em torno da praça. Inacreditavelmente, essa manifestação circular perdura até os dias de hoje. Toda quinta-feira as mães se reunem e circulam...
Não existe, por parte delas, a esperança de reencontrarem seus filhos e netos com vida. O que há é o espírito de luta por justiça que, segundo doña Juanita “ começa a se mover, com passos lentos, mas já se move”.

Em 2007, para o governo de muitos países, a ditadura militar é um fato que pertence ao passado. Tenta-se apagar essa página tão sangrenta e obscura da América Latina. Criam-se cortinas de fumaça toda vez que o assunto vem à tona, como no caso dos documentos encontrados queimados numa base da Aeronáutica, na Bahia, no Brasil.Talvez nunca saibamos o que se passou nos porões da repressão, nem onde estarão escondidos os corpos de tantos lutadores que caíram. No entanto, há que se dialogar com esta memória. Existem documentos, considerados sigilosos pelos nossos governos que trazem, sob o signo de “confidencial”, a história de muitas vidas, bem como o nome dos assassinos.

Madre de Mayo
Sede da Associação das
Mães da Praça de Maio
Foto: Adriana de Carvalho Alves

A abertura destes documentos é crucial para o esclarecimento dos fatos, mas vem sendo postergada há muitos anos. O advento da democracia trouxe a esperança para muitas famílias que perderam seus filhos, porém todas as expectativas foram frustadas. Ano após ano, os governos adiam este diálogo. Talvez por medo de remexer em algo tão doloroso, talvez por pressão de muitos agentes das forças militares que podem ter seus nomes envolvidos. A medida adotada pelos governos de diferentes países tem sido a de conceder compensações financeiras às famílias, o que não diminui a dor, a ausência nem a necessidade de esclarecer os fatos, dando um enterro digno aos que morreram na luta por igualdade e justiça.

O fato é que não devemos deixar esta memória ser apagada pela história oficial. A continuidade da luta dos que se foram, deve ser retomada pelas novas gerações e um passo importante para isso, tem a ver com a luta pela abertura dos Arquivos Militares e pelo julgamento de todos os envolvidos.

Leia mais

Conheça o documentário "Do Horror à Memória", sobre um dos centros de tortura da Argentina.


* Adriana de Carvalho Alves, historiadora (Faculdade Teresa Martin), professora de escola pública, integrante do grupo Canto Libre e latino-americana. Clique aqui para entrar em contato.



 

voltar

home