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A América Latina é um continente solitário na grande imprensa brasileira
Um rápido
olhar pelas páginas dos jornais ou pelas manchetes de televisão
denunciam uma solidão latino-americana tão forte quanto a retratada
por Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão.
A indústria jornalística, principalmente a brasileira - porque
o mesmo processo pode ser percebido nas mídias equivalentes dos vizinhos
latino-americanos - não tem a América Latina como categoria
de seleção de notícias. A indústria jornalística
é formada por todos os veículos de comunicação
que seguem o padrão industrial de acumulação capitalista:
busca pelo lucro, serialização das funções para
diminuir o tempo e as inconformidades da produção. Nessa categoria
se encaixam jornais como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, revistas como
Veja, Isto É e Época e emissoras de TV como Globo, Record e
SBT.
Este tipo de imprensa tem o olhar voltado para o eixo Europa-EUA, portanto
é mais fácil encontrar uma manchete sobre uma bebida oferecida
pelos bares de Nova Iorque do que sobre um movimento cultural nos países
andinos. A cobertura palaciana de presidentes e encontros comerciais no velho
mundo ganha mais importância do que os conflitos sociais nos campos
latino-americanos.
Há diferentes fatores que explicam este cenário de solidão
e que podem ser encontrados em dois eixos de análise.
No primeiro eixo está o mundo do jornalismo, que, assim como outras
categorias, sofre com a exploração das relações
de trabalho. O resultado pode ser visto em coberturas medíocres, feitas
com o objetivo de atrair a maior quantidade de público em menos tempo.
Além disso, dentro de uma redação, na tentativa de manter
o emprego o jornalista adota as mesmas categorias de pensamento de seus patrões.
Em pouco tempo dentro de uma indústria jornalística, o repórter
passa a defender os mesmos interesses dos grupos econômicos e políticos
proprietários dos veículos de comunicação.
Em outro eixo de análise está a história latino-americana.
O continente foi cindido historicamente em duas regiões: a América
Latina Oficial e a América Latina Popular. Na América Latina
Oficial estão as grandes cidades, a elite branca do litoral e dos centros
econômicos. Já a América Latina Popular é a dos
rincões, dos sertões, dos pântanos, das montanhas, mestiça,
negra, índia, operária e camponesa.
A América Latina Oficial impõe o domínio à Popular,
mas é dominada pelos EUA e pela Europa. A indústria jornalística
é orgânica da América Latina Oficial, por isso criminaliza
e despreza movimentos sociais e todas as manifestações da América
Latina Popular.
Da mesma forma que a historiografia oficial tentou apagar da história
as tentativas populares de revolução - desde os quilombolas,
passando por Canudos até as guerrilhas dos anos 60, a indústria
jornalística constrói um mundo baseado apenas nos desejos de
consumo dos centros econômicos da burguesia latino-americana, profundamente
dependente do capital norte-americano e europeu.
O outro lado da história hoje só é contado pela mídia
independente, orgânica da América Latina Popular, ligada aos
movimentos sociais camponeses e operários. São veículos
como o jornal e revista do MST, as revistas Caros
Amigos e Fórum, o jornal Brasil
de Fato, as agências na Internet Carta
Maior, ALAI e Adital.
A saída para a América Latina Popular sair dessa solidão
a que parece condenada é fortalecer ainda mais os meios de comunicação
ligados aos movimentos sociais. Deve incentivar uma mídia que não
siga a lógica da indústria jornalística e adote outras
categorias de seleção de notícias que contemplem a história,
as lutas, a cultura e o cotidiano da América Latina Popular.
* Alexandre Barbosa,
professor universitário (Uninove) e jornalista. Mestre em Ciências
da Comunicação pela USP e especialista em Jornalismo Internacional
pela PUC-SP. O texto é um resumo da palestra promovida pela AELAM na
Unisantos, em maio de 2006. A análise completa - a dissertação
de mestrado que trata deste tema - pode ser encontrada na Biblioteca Virtual
de Teses da USP (www.teses.usp.br)
com o título "A solidão da América Latina na grande
imprensa brasileira".
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