Cuba Libre!
Por José de Almeida Amaral Jr*
Desde que o famigerado Muro de Berlim separando por 28 anos a referida cidade entre lado capitalista e outro comunista dentro da Alemanha Oriental, de forma surpreendente, caiu em 9 de novembro de 1989, simbolicamente morreu com ele a Guerra Fria. Findava-se o confronto envolvendo partidários dos EUA e da URSS, vencedores da II Guerra Mundial. Uma tensão que deixou o planeta desde o pós 1945 em estado permanente de alerta devido ao alto poder destrutivo apresentado por ambos os lados, aparelhados com armas químicas e nucleares. Uma diária ameaça entre as partes. O equilíbrio do terror. Com seu encerramento, a URSS se esfacelou e o bloco pró-América do Norte foi declarado vencedor. A esquerda, enquanto seus rivais festejavam, entrou em grande crise existencial pelos quatro cantos. Muitos abandonaram antigas convicções. Outros permaneceram perplexos. Livros de pensadores socialistas foram vendidos em liquidações. Um período bastante difícil que serviu para muita reflexão. No entanto, houve quem não arredasse o pé um só instante, mesmo com todas as pressões. Entre os poucos baluartes da resistência há um país latino americano que, até hoje, se mantém atento. Uma ilha caribenha, localizada a poucos km das terras de Tio Sam. A ensolarada Cuba de Fidel Castro.
É comum vermos analistas se dirigirem ao governo daquele país como ‘dinossauro’, ‘retrógrado’, ‘mente atrasada’, ‘caquético’ entre outras adjetivações sarcásticas que acompanham o termo ‘ditadura castrista’. Com a atual hegemonia capitalista tem-se a impressão que a humanidade está destinada a permanecer assim para o restante de seus dias. Nada mudará. Aliás, é como se os fatos tivessem caminhado numa espécie de ‘evolução’ e atingíssemos no fim do século XX o ápice de imutável destino. O ‘fim da História’, como escreveu Francis Fukuyama, intelectual nascido em Chicago. Bom para os seus beneficiários. Ruim para quem está excluído de suas possibilidades. Só para lembrar aos ainda eufóricos, neste ano, fevereiro, a ONU em sua 45ª sessão da Comissão de Desenvolvimento Social publicou texto apontando que a globalização capitalista não reduziu as desigualdades e a pobreza entre 1980 e 2000. De acordo com o relatório ONU das Metas para o Milênio-2007 cerca de 19% da população mundial ainda vive com menos de US$ 1 por dia. Mais de 1 bilhão de pessoas está abaixo da linha da pobreza em todo o mundo. Só nos países em desenvolvimento, 980 milhões de pessoas viviam com menos de US$ 1 por dia em 2004. No mesmo ano, na América Latina e no Caribe, 8,7% da população vivia com menos de US$ 1 por dia.
No início deste novembro a ONU pediu pela 16ª vez consecutiva o fim do bloqueio comandado pelos EUA a Cuba. Há 40 anos ocorre um embargo contra a nação caribenha que dificulta negociações comerciais, financeiras e econômicas com as autoridades daquele Estado. Conforme Jean Ziegler, representante da ONU pelo Direito à Alimentação, o embargo é uma ‘arrogância unilateral’ e um evidente ataque à ordem internacional. Por que não libertar o povo cubano dessa violenta coação? Quando o embargo foi iniciado, corria o ano de 1962. Gerou-se um sufocante cenário. Já no ano anterior os EUA cortaram relações comerciais com as lideranças que haviam conquistado o poder em 1959. Em 1962 a OEA expulsou Cuba. Assim, a ilha cada vez mais se aproximou dos soviéticos para evitar isolamento. Porém, a Guerra Fria há tempos é página virada. E os recursos pararam de chegar. Mas, os EUA, orgulhosamente não cedem. Mesmo a cada ano que passa ficando mais solitários nessa posição.
Em 1992 a primeira resolução contra o embargo teve só 59 votos a favor. Hoje tem 184, 4 contra e uma abstenção. Os paladinos yankees da justiça querem à força derrubar o governo cubano, num evidente revanchismo que jamais deixou de existir, desde que a revolução se deu a tão pouca distância da fronteira da grande potência. Nunca engoliram isso. Vai daí acontece o batido discurso contra ‘o tirano’ Castro e sua cambada de barbudos terroristas nos grandes eventos dos exilados em Miami, ao som de Gloria Stefan & co transmitidos via satélite pela ABC, CNN, CBS and others channels.
Por outro lado, é interessante destacar alguns dados que a imprensa insiste em não dar muito espaço sobre o cruel mando de Fidel Castro.
Sem tv de plasma, sem automóveis com GPS, sem vídeo-games em terceira dimensão entre outras maravilhas do consumismo eles são, com todas as dificuldades existentes, o 50º colocado no Índice de Desenvolvimento Humano-ONU/2006. O Brasil é o 69º. A média de vida é de 77, 6 anos, superando a dos EUA que cravam 77,5 anos. De cada 1000 nascidos, morrem 7 antes dos 5 anos. Nos EUA, morrem 8. No Brasil, 34. Saneamento básico atinge a 98% da população. No Brasil, oficialmente é 61%. Com relação aos gastos com saúde pública, dá 6,3% do PIB em 2003. O Brasil está em torno de 3,4%. Eles têm o maior nº de médicos per capita entre todos os 177 países da ONU. Mais que o dobro dos norte-americanos. Conforme afirma a edição de agosto, nº 33, da revista Caros Amigos Especial, em 2003 pela 1ª vez os EUA fizeram um acordo com os cubanos para obter a vacina desenvolvida por eles contra o câncer de pulmão. Há um sistema envolvendo 445 policlínicas. Mais de 13000 consultórios de médicos e enfermeiras da família. Eles convivem com um quadro epidemiológico de Primeiro Mundo. Com a ausência de enfermidades, precisam sair do país para desenvolver pesquisa! Há 29 mil profissionais atuando fora da ilha. Um povo que tem, valoriza e desenvolve cultura. Havia mais de 23% de analfabetos antes de 1959. Hoje, há apenas 0,2% acima dos 15 anos. Estão à frente dos EUA, Canadá, Japão, Suíça, França e, claro, do Brasil. Nós, que não perdemos tempo em condenar o governo deles. Lá há 10 alunos por professor, contra 14 dos EUA e 20 no Brasil. Investe-se quase 10% do PIB em educação. No bicentenário de nossa independência chegaremos, se não desviarem verba para pagar juros ou outros fins menos nobres, a 6% do PIB. Enfim, como disse um brasileiro que vive por aquelas bandas desde o golpe de 1964: “no Brasil são 200 milhões de técnicos de futebol; em Cuba, 11 milhões de cientistas sociais, políticos e economistas.”
Por que os EUA, o ‘farol da liberdade e da democracia’, ‘xerife global’, não têm a mesma preocupação com os governos da Arábia Saudita ou do Paquistão? Porque apoiaram ditadores por toda a América Latina nos ‘anos de chumbo’ das décadas de 1960 e 70? Por que mentiram para caçar seu ex-aliado Sadam Houssem no Iraque, transformando o milenar país num inferno de destruição? Será que o Império teme a pequena ilha que, mesmo asfixiada, realiza esse prodígio social?
Que o povo cubano resolva suas pendengas internas sozinho. Pela autodeterminação dos povos. Todo apoio à resolução da ONU. Cuba libre já!
07/11/2007