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Conheça a história de José Artigas, libertador do Uruguai

Por Iracema de Souza
Jornalista pela Faculdade de Comunicação e Turismo Hélio Alonso – FACHA, com extensão universitária em História História Política Brasileira – Universidade Católica de Petrópolis. Atuou com jornalista e redadora em diversos veículos do Rio de Janeiro como Tribuna de Petrópolis e Diário de Petrópolis.
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DON JOSÉ GERVÁSIO ARTIGAS - “El protector de los pueblos libres”

“Sem virar a cabeça, o senhor afunda no exílio. Vejo o senhor, estou vendo: desliza o Paraná com preguiça de lagarto e lá se afasta ondulando seu poncho mambembe, ao trote do cavalo, e se perde na mata. O senhor não diz adeus à sua terra. Ela não acreditaria. Ou talvez o senhor não saiba, ainda, que está indo para sempre. Vai ficando cor de cinza a paisagem. O senhor vai-se embora, vencido, e sua terra fica sem fôlego. Será que lhe devolverão a respiração os filhos que nascerem, os amantes que chegarem? Os que desta terra brotem, os que nela entrem, serão dignos de tristeza tão profunda?

Sua terra. Nossa terra do Sul. O senhor será mais necessário a ela, don José. Cada vez que os ambiciosos a machucarem e humilharem, cada vez que os bobos acharem que ela está muda e estéril, o senhor fará falta. Porque o senhor, dom José Artigas, general dos humildes, é a melhor palavra que ela pronunciou.”


Eduardo Galeano

Artigas

O século XIX despontava e trazia para a América usurpada e amordaçada, os primeiros sinais de intolerância com o desrespeito vindo das metrrópoles. As coroas portuguesa e espanhola, na febre e ganância pelo ouro, arrasaram nossas terras, violentado nações inteiras, demonizando crenças, subestimando saberes, golpeando profundamente nossa identidade e soberania. Vila Rica, no Brasil, Potosí onde hoje é a Bolívia e tantas outras aldeias, doaram riquezas incomensuráveis para a Europa Colonial. Homens, quer índios, negros ou mestiços haviam doado suas vidas na extração da vida da terra em nome de uma coroa que sequer os reconheciam com o valor dos homens que eram.

Mas, os ventos que sopram lá, singram mares e chegam aqui e, pouco a pouco romperam-se os grilhões. Vozes se levantam, olhos se erguem aos novos acontecimentos. Os princípios do Iluminismo ultrapassam fronteiras. O tripé: liberdade, fraternidade, igualdade ecoa entre pensamentos e lábios americanos cansados da expropriação de seu solo. Um sentimento único de frustração unia as tantas Américas esfaceladas pelo domínio espanhol e português em busca da sua identidade.

Para os uruguaios o verdadeiro sentido da palavra nacionalidade nasceu com a força do movimento revolucionário liderado por José Artigas, antigo soldado da coroa espanhola e que depois, com o amadurecimento do sentimento nacionalista, liderou um movimento popular na margem esquerda do Plata, na chamada Banda Oriental.

Uruguai - Arte do site do Memorial da América LatinaArtigas lutava pela emancipação de sua terra, seu povo, os oprimidos e pelo ideal de igualdade e liberdade. Não se submeteu à Espanha, representada pelo Vice-Reino sediado em Buenos Aires ou às tropas luso-portuguesas, na Guerra da Cisplatina.

Contrário ao despotismo e arrogância, contra o poder espanhol nas terras da América Latina, contra as pequenas oligarquias, os novos donos da terra que ampliavam sua fortuna e seus latifúndios em detrimento do povo cada vez mais miserável, migrou em 1811 e foi acompanhado por milhares de seguidores para outra região ao norte, a Vila de Purificación em Payssandú, cortando relações com os portenhos, representantes da coroa e com qualquer outra nação que tentasse abater-lhe a soberania. E lá, por pouco tempo conseguiu governar e liderar com independência, conseguiu viver em paz.

Uma vez governante, coloca em prática seu plano de reformas econômicas e sociais, mas principalmente um grande projeto de reforma agrária, o primeiro e mais completo que a Pátria Grande presenciou. Foram beneficiados os índios que ganharam dignidade, os gaúchos rústicos, os escravos, enfim os até então oprimidos pelas classes dominantes. Por sua obra em consonância com os pobres, foi aclamado como “El protector de los pueblos libres”, como até hoje é reconhecido.

Entretanto, o ideário de Don José Artigas tanto desagradava tanto os espanhóis quanto os portugueses, que viam em suas fronteiras os brados de independência se concretizarem em realidade e viam as máximas iluministas confrontarem-se com seus interesses de poder e riqueza. Em 1816, tropas luso-brasileiras invadem a vila de Purificación e depois de quatro anos de resistência as tropas artiguistas tombam. Portugal anexa ao Brasil as terras conquistadas que recebem o nome de Província Cisplatina. Alquebrado, Don José parte para o exílio, um longo e silencioso exílio, morre em 1850 sem jamais voltar ao solo pátrio.

Todas as conquistas de José Artigas estavam aniquiladas, as terras justamente doadas, foram arrancadas a ferro e fogo de seus proprietários. Era a vingança da oligarquia que retornava mais feroz era mais uma vez o peso da mão do mais forte sob a cabeça do oprimido.

A Província Cisplatina continuou anexada a Portugal e depois ao Brasil até 1828, quando através de desdobramentos políticos e intervenções de interesse da diplomacia inglesa, finalmente conquista sua independência.

Sobre o último período da vida de José Artigas, pouco se sabe, a História não fez a justiça merecida. Ainda hoje os campos uruguaios permanecem desertos com grandes extensões de terra nas mãos de poucas famílias, enquanto que nas aldeias do entorno desempregados marcham desalentados. Mas quando o vento sopra nos pampas ainda se escuta um galopar, e os mais velhos afirmam esperançosos: É o cavalo de Don José - ele jamais nos abandonará.

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